30.11.05

Sobre lágrimas... e seus motivos

"Sou chorona, sim. E daí?" Esse é o nome de uma comunidade no orkut e é claro que estou nela. Outro dia um amigo perguntou se eu gostava de chorar. Na hora, nem lembro o que respondi, mas aproveito pra responder agora. Não é que eu goste. É que às vezes é necessário que as gotinhas mágicas saiam dos olhos. (ninguém precisa de olhos lubrificados demais, por isso, se chora!) Além disso, quando se precisa chorar e não chora, dá uma dor sobre os olhos... uma pressão estranha... que só passa depois que saem todas as farpas em formato líquido.

Não, eu não gosto de chorar. Principalmente porque não me lembro de já ter chorado de felicidade.

Já chorei de raiva, chorei de tristeza, de angústia, de preocupação... chorei por me sentir desconsiderada, chorei de arrependimento pelo que fiz ou pelo que não fiz... chorei pouco de dor física (quando a dor é pequena, não choro, e quando é grande demais, desmaio.) Chorei assistindo filme, ouvindo música, lendo livros ou e-mails... já chorei ao ver meus filhos chorando (por suas várias razões)... Depois, se lembrar de mais motivos, incluo aqui. Mas tem um especial. E juro que é verdade: nunca chorei numa despedida!

Sempre fiquei morrendo de vergonha, pois nas vezes em que parti ou vi amigos partindo, era a única de "olhos secos". Não me perguntem por que... talvez fosse porque dentro de mim a distância não é nada e eu soubesse que amigos de verdade nunca vão embora. Talvez fosse - e muitas vezes pensei assim - porque "a ficha ainda não tinha caído"... Mas com certeza não era por não dar importância à partida fosse de quem fosse. Simplesmente, não chorava.

"Saí de casa" com 17 anos... e fui morar a 1200Km, numa época em que pra vencê-los, precisava viajar durante 2 noites completas (só tinha ônibus noturno Ilhéus-Salvador e Salvador-Recife), telefone era algo caro (uma ligação por semana, e olhe lá... sem muito papo!) e o forte era o trabalho daqueles rapazes de uniforme amarelo e azul... esperados com ansiedade... ou das meninas que iam buscar a correspondência enviada à Caixa Postal 221 (e quando essas criaturas resolviam fazer algo "na cidade" e não chegavam no horário costumeiro... era terrível!). Pois nem nessa época eu chorei de saudade.

Já namorei à distância... sem lágrimas. Já enterrei amigos e parentes sem lágrimas (não necessariamente todos). Até já socorri uma amiga que se suicidou... e aí foi incrível. Não chorei na hora - e nem podia, precisava tomar todas as providências, polícia, legista, etc... - e passei mais de um ano sem que uma lágrima saísse dos meus olhos. Ainda bem que essa fase passou, porque já não aguentava a tal dor das "farpas" sobre os olhos.

Ultimamente... tenho precisado de um baldinho pra segurar a inundação, já que não tem uma torneirinha pra fechar. E acho que sei o motivo. Não, não é saudade antecipada da minha menina que com 17 anos também vai cruzar os mesmos 1200Km. Também não, não é preocupação com a "cabecinha de vento" que vai morar ainda não sei com quem. E antes que alguém fique tentando em vão adivinhar... eu digo, já que vou deixar ler. Tenho chorado porque me decepcionei comigo mesma!

Eu sabia que esse dia iria chegar... desejei que ele chegasse - é a prova de que ela cresceu e conseguiu realizar algo que muita gente quer e não consegue! Achei que estava preparada. Achei que ia ser tudo como sempre foi... mais uma despedida sem lágrimas. Ainda mais que agora tem a net, principalmente o MSN (e ela vai levar um computador pra garantir que vamos ficar conectadas), um plano da "OI" que me dá 100 minutos no celular com ela, a "GOL" que faz a viagem durar pouco mais de 1 h... parece tudo tão fácil...

Mas quando vi a hora chegando... durante a semana anterior à viagem, foi o caos se instalando na minha cabeça e na minha vida. Fiz prova sem estudar, entreguei trabalhos pela metade, ouvi de uma professora (via e-mail) "o que está acontecendo com vc, posso ajudar?" e tive que responder: "você só pode ajudar me dando um 'desconto' nos trabalhos mal feitos!"

Eu não sou mais quem eu era! Por isso chorei! Não sou mais aquela que enfrenta uma separação consolando todo mundo. E chorei abraçada àquele pedaço de mim que é exatamente o contrário: sempre chorou em despedidas, fossem as mais dolorosas (como quando a melhor amiga foi morar em Conquista) ou as mais comuns (a cada volta da casa dos avós). Não sei se foram minutos ou horas que passamos abraçadas, soluçando, as duas.

E agora lágrimas descem novamente dos meus olhos, em pensar que sou egoísta. (Outra decepção.) Vou ficar sem a companhia pro cinema, pras idas ao "comércio", pras sessões de DVD incluindo todos os "extras"... vou ficar sem ter quem me faça uma massagem quando a coluna doer... quem venha me mostrar um conto ou um desenho... quem ouça com atenção as histórias que eu conto sobre o passado ou o presente... não vou ter aqueles lindos olhos verdes (feitos sob medida) que ao se encontrarem com os meus não precisavam dizer muita coisa... e a gente já caía na gargalhada... (como as GG). Sou egoísta, sim. E estou chorando por ter descoberto isso, ou por ter que admitir essa fraqueza.

Me consolo em lembrar o que uma amiga me disse outro dia: que a dor do parto é eterna. Que depois da dor física, muitas outras vêm e vão... mas sempre há alguma. Enfim... o título desse post deveria ser "Sob lágrimas... foi como eu vim!"

5 comentários:

Anônimo disse...

Noooossa que liiiindo Anabel!!!
Tenho q dizer q as lágrimas me vieram aos olhos e vc conseguiu mesmo expressar toda a sua dor, eu pude ver toda a cena como num filme. A dor da saudade antecipada, dos medos, da distância. A inseguranca q o mundo dá, mesmo com toda a tecnologia em volta. Mas um dia temos q deixar os filhos engatinharem na vida e sozinhos para aprenderem a andar, e no andar aprenderem a cair e o mais importante depois q se aprende a andar é a se levantar e sozinhos. Prá vc minha querida amiga foi o 1. corte de um cordâo umbilical bem longo e bem forte. Deve ter doído muito. Mas pense q o AMOR de vcs é mais forte e por isso sei q tanto ela qto vc conseguirâo aprender a trabalhar a dor da separacâo.
Um beijo no seu coracâo

Georgia

J Lívio disse...

Ufa Bebinha...eu tb choro muito pouco, mas aquela dor apertada na garganta muito frequente. Lindo seu post e desde o inicio que eu havia sentido quao bonito eh seu relacionamento com sua filha. Vai la, continua escrevendo que eu sou masoquista e gosto de sentir um no na garganta!!

DARKNIGHT disse...

Como é que se chora????
"Ok"!

Anônimo disse...

Bel... ainda estou chorando de emoção, de saudade, sei lá mais do quê... adorei o blog e me identifiquei demais com o que escreve sobre as impressões da partida... já vivi isso, vivo isso e viverei isso todos os dias pq a saudade é única e diferente... Sentimos saudades dos nossos das mais variadas formas, mas dos filhos é algo inexprimível... Porém conseguimos, amiga! Nossas mães conseguiram, nós por certo conseguiremos!(e na época delas não havia a net co orkut, o msn, o celular e... e...) Vou enxugar o rosto (tô no trabalho) dps conversamos... Beijão!!

Leandro disse...

O tempo nos traz coisas inesperadas, graças à Deus!

Como disse Nelson Rodrigues, "jovens, envelhecei!".

Sou seu oposto. Sempre fui chorão. Mas chorei mais por felicidade. Hoje, tenho 34 anos. Tenho raiva, vergonha, medo, fico puto quando percebo que não sou mais aquele jovem forte, tiposo, bom de briga, que nunca se machucava - como se não tivesse sangue. Tenho pena de mim por muitos outros motivos. Mas também tem as boas características que a idade me trouxe. E a que eu mais gosto não é novidade nem foi modificada co o tempo. É que eu sou um homem que não tem vergonha de chorar. Chorar é bom - pelo menos para quem gosta. Principalmente quando se está feliz.