11.12.05

"Só agora..." e a resposta da mãe.

"Só agora

Só agora, por um instante, na minha vida confusa e apressada, eu queria parar.
Parar e lembrar de quando eu não tinha que saber tudo, mas tinha certeza que sabia,
Quando meu riso era puro e sapeca, sem baton nem hipocrisia.
Lembrar de quando eu brincava e não me importava com o que iam pensar de mim.
De quando eu gostava da Fanta e de "Bom Dia & Cia", que ainda era com a Eliana, se você ainda lembra dessa era...
Queria que festa voltasse a ser aniversário, e que presente fosse brinquedo.
E lembrar de quando nada prendia meu cabelo leve e rebelde de menina,
E quando meus pés sentiam a terra sem estar em cima de 15 cm de salto.
Queria voltar e não saber o que é dor nas costas.
Queria sentir de novo aquele perfume com cheirinho de bebê que minha mãe adorava e eu não me importava.
Só agora...
Queria lembrar de quando não existiam namorados, só amigos.
E sair na chuva sem me preocupar com a roupa ou a maquiagem.
Queria, só agora, voltar ao tempo em que o melhor que eu podia fazer com meu dinheiro era comprar chocolate.
Queria lembrar de quando a escola era legal e a gente tinha "tias".
Lembrar também de quando as tardes de férias eram curtas, frescas e cheias de amarelinhas, bicicletas e cajus.
Queria lembrar de quando amar era dar um hiper beijo de boa noite em meus pais.
Queria saber de novo como é sentir que sua vida não pode estar melhor, simplesmente porque você tem amigos e sabe cantar o Hino Nacional todo.
Queria pensar de novo que a lua é feita de queijo e ficar me perguntando por que a água da terra não derrama.
Mas aí eu acho que já é querer demais. Mas eu queria, ah, como eu queria tudo isso, só agora...

Aline Silveira Cavalcanti
12/03/2004




Filha:

Digitei o seu texto, não sei se você já havia feito isso, mas com sua vida "confusa e apressada", imaginei que não.

Nem sei o que dizer. Fiquei emocionada em perceber nas entrelinhas que o meu bebê cresceu. Que o tempo passou, e não é que eu não tenha visto, vi, sim. Acompanhei de perto os seus passos, seu amadurecer precoce, acho que até por culpa minha, ou por incentivo meu.

Quando li seu texto, só não chorei "porque não sou disso" – mentira – não chorei porque não consegui, embora tivesse ficado morrendo de vontade. E quis chorar porque nada do que você queria, cabia a mim lhe dar. (Com exceção de que posso esconder todos os seus sapatos de salto alto e fazer você sentir a terra nos pés... ou comprar o perfume com cheirinho de bebê...)
Todas as suas lembranças são muito bonitas, que bom que você não tem traumas de infância que lhe desejem fazer esquecer tudo o que passou!

Desculpa ter que fazer você passar por coisas como gastar seu dinheiro com passagens para Itabuna em vez de chocolate ou encurtar mais ainda as suas férias por conta do meu vestibular. Mas, enfim... nem tudo é como a gente quer.

Eu também gostaria de, só agora, ter você pequenina em meus braços embaixo de um travesseiro, já que eu tinha medo de lhe derrubar, em seus 2.280g iniciais. Colocar você no peito, desejar suco de cajá desesperadamente enquanto você sugava o leite que lhe fez dobrar o peso no primeiro mês e ter dentes fortes e a melhor saúde possível em sua vida. Queria, só agora, voltar a cortar seu cabelinho com a tesourinha de unha, nas noites de lua cheia, pra ver se ele crescia mais rápido... Queria, só agora, voltar a ouvir "canta, mamãe", quando eu tentava lhe colocar pra dormir e dormia antes de você... que sempre achou que dormir era perda de tempo! Acho que agora você mudou de opinião!

Queria poder voltar a entrar na sua escola só pra olhar da janela que você estava bem, que não estava chorando... ainda bem que agora você se encontrou num ambiente que lhe faz bem, que não lhe tolhe ou descrimina. Queria poder conversar com suas "tias" e contar o que você falou em casa, qual visão você tem delas, desse ou daquele assunto. E sentir o carinho que você despertava em todas elas, que até hoje, quando me encontram, perguntam por "Alininha".

Você já vai fazer 16 anos! Quanta coisa já viveu, e só agora eu me dei conta! Quanto mais tem pra viver!... Estava lembrando a letra do "Rock and Roll Lullabay", e embora eu não tenho tido você com 16 anos, acho que sou um pouco como a mãe da canção: "calm my fears and dry my tears with a rock and roll lullabay... And she would sing sha na na na na na na na na... It will be all right! Sha na na na na na na na na... Now just hold on tight..." que acha que vai ficar tudo bem, basta apertar firme a minha mão. Só agora, eu gostaria que você voltasse a acreditar quando eu dissesse: "mamãe tá aqui, vai ficar tudo bem."

Mas eu me contento em saber que você está aqui. E sei que vai ficar tudo bem. Por uma única razão: a gente se ama! E não há nada que possa atrapalhar ou negar esse axioma!!!

Mammy


Explicando:
Estava procurando uns documentos na gaveta destinada a tais... quando encontrei os dois textos. Foram escritos há mais de um ano, mas... não perderam a "validade" (fora a parte do "você ainda está aqui"...) Resolvi compartilhar com vocês, ainda mais que estou nessa de saudade da minha menina...

2 comentários:

regina disse...

q coisa linda.... como a line escreve maravilhoso.parabens pela filha q vc tem e pelo talento dela. q bençao incrivel. parabensssssss

J Lívio disse...

Como ja falei antes, acho fantastico essa coisa do relacionamento entre as pessoas, e entre mãe e filha, pai e filho, mãe e filho e pai e filha são realmente especiais. E que bom que o seu relacionamento com a "Alininha" é muito bonito e forte; Parabens para vcs duas, e continuem a fazer desse mundo um lugar melhor de viver.