20.1.06

Ecologicamente correta... até quando?

Era linda! Loirinha, olhos cor de mel, e desde que chegara à adolescência, cuidava direitinho da saúde e da aparência. Como tinha uma certa tendência para ganhar peso, corria no Parque Holandês todos os dias no final da tarde. O frio de Curitiba exigia, e ela usava um agasalho verde-água com capuz. O apelido foi fatal: Chapeuzinho verde! Ela não gostava nem desgostava, e foi deixando.

Sua mãe era daquelas radicais: vegetariana, só comia arroz integral. Refrigerante? Nem pensar! Copo só de vidro e na bolsa um daqueles portáteis, nada de descartável. Fechava a torneira enquanto escovava os dentes, afinal de contas, era preciso preservar a água do planeta! E passava as lições com todo cuidado para os dois filhos, que iam pelo mesmo caminho. E eles se preocupavam tanto com esse aspecto da vida, que escolhiam os amigos por sua afinidade ecológica, pelo interesse com o meio-ambiente.

Numa de suas corridas de final de tarde, aconteceu o que podia ser previsto, e era até esperado: Seus olhos se cruzaram com os de um rapaz que estava sedentariamente sentado num dos bancos do parque. Foi como se um ímã os atraísse. Magnetizados, Chapeuzinho e o Lobo - sim, era esse o nome dele: José Lobo, e como José é um nome muito comum, ele preferia ser chamado de Lobo - logo perceberam que algo iria acontecer. Começaram a conversar quando ela parou "para descansar" e tirou do bolso uma barra de cereal light. O Lobo tinha uma voz gostosa ... e naquela tarde Chapeuzinho correu somente metade do seu percurso costumeiro.

Quando chegou em casa a mãe percebeu que havia algo de diferente na expressão de sua filha. Ela estava apaixonada!

No dia seguinte, o Lobo estava lá, sentado no mesmo lugar, e de novo a corrida foi reduzida, assim como em toda a semana seguinte. Não seria nada demais, se um dia o convite fatídico não fosse feito: "Vamos ao MacDonald's?" Chapeuzinho caiu das nuvens! Aquela voz tão gostosa estava dizendo algo tão nocivo? Mas antes que pudesse reagir, já estava de mãos dadas com o Lobo na direção daquele "M" que ela repugnava!

O pedido foi feito, e tudo em "tamanho gigante" (Super Size) que fizeram com que ela meio atordoada perguntasse: Pra que essa batata gigante? Pra que essa coca de 750 ml? Pra que um Big Mac duplo? Cabe tudo isso em seu estômago? Você é uma avestruz?

O Lobo respondeu simplesmente: você pergunta porque não sabe o que está perdendo!

Chapeuzinho resistiu enquanto pode. Mas o Lobo comia com tanto gosto, parecia estar mais interessado no lanche do que nela. Os olhos dele não desgrudavam do Big Mac e ela começava a imaginar que prazer seria aquele. O copo de coca ia sendo esvaziado e ela sentiu a boca seca. O suco de laranja que ela pediu perdeu o gosto, de repente não era mais sua bebida preferida. Quando ela ia abrir a boca e pedir um gole de coca, o celular tocou. Era Hunter, seu irmão. (Salva pelo gongo!) A pergunta clássica de quem fala ao celular em 3 segundos: "Onde 'cê tá?" quase não pode ser respondida. Dizer "no Mac Donald's" parecia um sacrilégio. Mas como ela não era de mentir, disse. E Hunter gritou do outro lado: "O quê??? Tô indo te pegar!" e desligou rápido, apesar de a chamada já ter sido cobrada.

O Lobo não entendeu nada. Chapeuzinho estava desorientada. Aquele enorme copo - descartável - à sua frente era a visão de uma bomba! Ela não sabia se saía correndo, se esperava o Hunter que vinha lhe buscar ou se ficava e encarava a coca e as fritas com o Lobo.

Nem ela sabe se foram minutos ou segundos de paralisia antes que o cheiro das batatinhas se entranhasse em suas narinas. Chapeuzinho caiu de boca no copo de coca e o Lobo teve que pedir outra porção gigante de fritas.

Hunter tinha ficado tão apavorado com o risco que sua irmã estava correndo, que nem perguntou em que Mac ela estava. Quando ligou de novo, ela estava tão absorta em sua nova experiência, que não percebeu o celular tocar e a chamada foi parar na caixa postal que ela nunca acessava. Hunter insistiu, e o som do celular tocando o tema de "Missão Impossível" acordou Chapeuzinho.

Peraí... era sonho??? Ela sentou na cama sem acreditar que aquele gosto que sentira e a sensação do gás do refrigerante eram apenas sua imaginação!!! Ela ainda tinha chance de continuar a ser quem sempre fora!!! O celular ainda tocava, e ela viu que era o numero do Lobo piscando. Atendeu ainda sonolenta para ouvir: "Vamos ao Mac Donalds hoje à noite? É aniversário do meu sobrinho e minha irmã vai fazer a festinha lá. Gostaria muito que você fosse comigo."

5 comentários:

Leandro disse...

Adorei, Bel! Demorou, mas saiu. Adoro textos em que as personagens se subvertem. Acho que vou mudar meu nome para Lobo, pra ver se me dou bem como ele - já que temos uma aparência física inegável.

Esse seu texto poderia ter ido para o 3noblog, né? Mas este seu texto me deu uma idéia para não deixar nosso filhotinho tão desatualizado.

Como sócio fundador, ponho em votação que se libere a publicação de textos escritos a duas mãos desde que não sejam identificados os autores. Como sou contra qualquer coisa anônima, sugiro que se escolha nomes fictícios que não permitão a identificação do autor nem de seu sexo. Que tal lhes parece?

line disse...

Chapeuzinho Verde...
aiai

tinha q terminar com uma intoxicação alimentar, já q a pobrezinha nunca tinha colocado aquelas porcarias deliciosamente engordativas do McDonalds na boca antes...
kkkkkkkkkkk
bjooo

Eliane Neves disse...

viva!!! Nossa querida voltou!!! Para alegria de seu afoitos leitores. E pela história esta ausência não lhe afetou em nada o talento!

J Lívio disse...

Belz, que criatividade...personagens bem pudicos esperando ser explorados! :) Welcome back qnd do not go away!! :)

regina disse...

q maravilha...como se tem o dom de fazer algo tao lindo,com um tal de macccc...q por sinal, eu adoro/
miga,seu talento é´demaisssssssss