14.3.06

O país das meias (comentando o post alheio)

Li o que o "colega" escreveu no "Depois do por-do-sol" Ele perguntou se a história "tinha moral". Acho que tem, não necessariamente a que ele imaginou... Perguntei se podia reescrever. Permissão concedida... tô aqui. E vou fazer o que faço normalmente ao receber e responder os e-mails quase semanais que atravessam o Atlântico: inserir meus comentários entre os parágrafos, só que lá realço com marca-texto. Aqui, a cor é a diferença e vou dispensar as aspas.

Pronto, sou uma meia. Minha parceira e eu somos um par de meias elegante. Nada de material sintético. 100% de algodão puro e escovado, daquelas social macia e que abraça o pé como só uma meia sabe fazer. Recém-saidas da embalagem, somos vestidas em pés sem calos, sem rachaduras e sem cheiro desagradável. Até o sapato é de couro novo. Italiano! Nós nos sentimos em casa, a vontade...o sonho de toda meia.

Se a meia tem "uma parceira", um par... posso comparar a um casamento. A gente normalmente começa um casamento querendo que dê certo. E se "aquele" par foi escolhido... é porque o "controle de qualidade" aprovou. É a meia que abraça o pé. Tudo é maravilhoso, tudo tem jeito, tudo tem sentido, pra tudo tem saída... é meio que um sonho! (o sonho de toda meia!)

Depois de tantas indas e vindas do pé, para a máquina de lavar, para a gaveta, para pé, para a máquina de lavar, para a gaveta... Ufa!! Que rotina mais entediante essa de ser meia.

É, o tempo passa... e a rotina chega. Trabalhar pra comprar o "leitinho das crianças", dormir e acordar com mil preocupações na cabeça, todos os detalhes da vida diária... vão fazendo com que se perceba que o casamento não é um sonho cor-de-rosa.

Foi quando pensei que deveria haver muito mais do que apenas ser uma meia usada, lavada e guardada. Deveria haver um lugar mais interessante do que cobrir aquele mesmo pé naquele sapato de couro.

E quando chega esse momento de se perguntar "deveria haver muito mais"... ai ai ai...

Cheguei a conversar sobre isso com o meu par, a outra meia, mas ela achou a coisa mais absurda. Meia nasceu pra ser meia até furar e ser jogada fora, sem vida, mal cheirosa, furada. Mas eu não me conformava com essa idéia.

Chamar pra conversar, "discutir a relação" é algo tão antigo quanto o casamento. Se negar a isso, também. É público e notório que a mulher é quem está sempre desejosa desse papo nem sempre agradável, mas certamente necessário. O homem... quando concorda em conversar... é quase certo que não concorde com o que ouve. Tá, isso é só uma inferência minha. Às vezes pode até concordar. Mas é a exceção.

E foi de pensar, tanto que descobri como transcender do mundo de cobrir pés para o mundo das meias. Isso mesmo, o mundo das meias.Um dia, no meio do caminho entre ser lavada e ir para a gaveta, transcendi e nunca mais voltei.

Um mundo novo é o que todo mundo deseja, quando se sente insatisfeito no seu mundo de rotina. E o que fascina é a novidade, a expectativa de realizar os sonhos... Ai ai ai... Se o país das meias é realmente toda essa felicidade... só indo lá pra saber. Mas se você for pra lá... tá no parágrafo aí de cima: nunca mais volta!



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