27.6.06

Há 15 anos atrás...

É sempre assim que começam as frases em dias como hoje. Alterando-se o número de anos, claro. Mas em dias de aniversário, é impossível não voltar no tempo e pensar no início de tudo. Então, para não fugir à regra... Há 15 anos atrás, a essa hora, eu estava entrando na sala de parto da Maternidade Santa Helena. Ir à Maternidade não era coisa nova para mim... nos últimos meses, havia passado lá muitos dos meus dias. Entrei em trabalho de parto aos 5 meses de gestação, por conta de complicações do meu corpo, nem sei dizer exatamente quais. O fato é que tive contrações de expulsão enquanto meu bebê não tinha ainda qualquer condição de sobrevida neste mundo externo. O Dr. José Slaib se mostrou muito mais que um médico competente. Foi um amigo cuidadoso e compreensivo, carinhoso e generoso, mil anos vão se passar e não vou esquecer de sua calma, me convencendo que minha dor era secundária, a vida dentro de mim era o primordial. Assim, durante 2 meses, passei dias internada, dias em casa... repouso absoluto, relógio na mão, contando o intervalo entre as contrações... que angústia!

Faltando menos de uma semana para completar 7 meses, as contrações estavam vindo de 10 em 10 minutos, e na noite do dia 26 de junho de 1991, fui pela última vez àquela maternidade. Achei que era mais um caso de ficar internada e esperar pra ver o que acontecia. Mas na rotina de ouvir o coraçãozinho com o sonar, daquela vez algo estava estranho. Dr. José colocou fones de ouvido, e passou muito tempo com a mão na minha barriga, só esperando a próxima contração. 8 minutos. Mais uma vez. E depois daquela espera que pareceu uma eternidade, a voz do médico já não estava tão tranquila. O bebê estava em sofrimento, o coração perdia uma batida a cada contração, era tirar agora ou arriscar perder. Não tinha condição de um parto normal, apesar de toda dilatação e ele já escorregando pra fora. Fiquei no soro, tomando medicação para o coraçãozinho dele, até o dia seguinte. E já na sala de parto, o Dr. Bira, o anestesista, me informava: "Não posso arriscar dar a anestesia na dose correta... o bebê prematuro não vai aguentar. Você pode ser forte e aguentar uma dose mínima?" Que resposta eu poderia dar? Mas não esperava que depois de tanta dor, eu passaria por uma cesriana quase "no cru". Vomitei, desmaiei, ouvi o anestesista dizer: "Zé, corre aqui, a pressão já era!" e a resposta: "Se eu parar aqui perco a criança, dê um jeito aí!" Não sei que jeito deram, ou que jeito Deus deu. O fato é que estamos os dois aqui. E inexplicavelmente, o registro que temos da cena do parto é apenas o momento final, onde Dr. José pediu silêncio e começou a recitar o Soneto da Fidelidade de Viníucius de Moraes, pra receber meu menino.

Não tenho fotos da gravidez tão tumultuada... apenas uma, essa que está aí.( E quase não parecia que estava grávida... ) Mas na minha mente as imagens estão gravadas e nem a ausência da tiróide nem a bendita DDA me deixam esquecer esse tipo de coisas!



Passada a agonia do parto, e tudo o que ocorreu depois (hemorragia, mais desmaios e etc...), deu pra esquecer que tinha um prematuro nos braços. Tá, era bem pequeno, tinha que ser também carregado em cima de um travesseiro... mas o coraçãozinho não deu sinal de problema algum. "E o menino crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens"... Aos 5 meses ganhou o apelido de "Kiko", por se comportar igual ao periquito dos tios Jacy e Walter, que "se derretia" quando falavam no seu ouvido (foto do momento que gerou o apelido). Fotografei o primeiro passo, gravei as primeiras palavras... aquele "olho que ri" me cativou completamente! Era difícil dar bronca na criança! Aprontava (e como!) mas olhava de um jeitinho... que era difícil continuar a disciplina. E chorava logo na primeira palmada, coisa que pra mim era indicativo que estava funcionando, já que a outra trancava os dentes e não derramava uma lágrima, em situação semelhante.



Era duro na queda pra dormir... E dormia nas situações mais diversas... somente quando os olhinhos não aguentavam mais e fechavam sozinhos. A filosofia de que "dormir é perder tempo" vem de berço!... E quantas vezes desejei mandar para a Grendene as fotos que fiz dele com a "minha Rider", que não saía do pé nem na hora de dormir, e como ele descobriu que eu tirava quando ele dormia, passou a esconder debaixo do travesseiro!



Do jeito que não gostava de dormir, também não gostava de comer. Desde o peito, tinha que ficar lutando pra enfiar algo na boca da criança. Deixei de amamentar cedo, por falta de estímulo. Mamava pouco, o leite acabou. E quando passou pra o leite em pó... a surpresa: intolerância à lactose! Diarréias terríveis, se colocasse um biscoito na boca, ou uma pazinha de sorvete. AL110, HN 90, marcas de leite que ninguém conhecia, eram nossas amigas fiéis (e caríssimas!) Depois veio o Sobee e finalmente o Bônus, que aliviou um pouco o bolso. Até os 4 anos de idade, foi um tormento impedir brigadeiros e bolos de aniversário... até que um dia, quando vi, já havia enfiado um brigadeiro interio na boca. "Perdido por um, perdido por mil", diz o ditado. Liberei geral, deixei come de tudo na festa. Surpresa! Nenhuma reação!!! Que alívio! Mas continuava sem querer comer... tomou mamadeira até bem tarde (pra ver se entrava alguma coisa!) e até os 10 anos, só almoçava se dessem comida na boca. (pura preguiça, mesmo!) Como eu havia desistido desse ministério alguns anos antes, a nossa Maria foi a sacerdotisa da hora do almoço todos os dias. (ver foto). Contando isso a quem o conhece hoje... parece mentira. O menino traça quatro, cinco hot dogs completos de uma vez... dá prejuízo em qualquer rodízio... e pra recusar algo, precisa ser mesmo muuuuito ruim!



Já deve ter sido mico demais pra ele, tudo que estou escrevendo aqui, mas... é coisa de mãe que filho TEM que aguentar. E assim, ainda devem restar mais alguns miquinhos pra ele neste post.

Olhando as fotos abaixo, ninguém diz... mas meus dois tesouros não são de andar agarrados. Ela até que tenta... mas o "irnãozinho" impõe uma certa resistência... que é difícil quebrar! Sei que eles se amam, mas como gostaria que demonstrassem esse amor! Eles ainda não sabem o quanto é duro perder alguém a quem amamos... e a tristeza que é não ter expressado esse amor da melhor maneira. Torço para que ainda aprendam a por pra fora o sentimento que eu nunca pude experimetar, que é o amor de irmão.



Hoje ele completa 15 anos. Está beeem maior do que eu, e fico pensando como isso pode ser possível.. aquele ser indefeso em meus braços se tornou um rapaz... com certeza mais forte do que eu. Ainda acho que o tenho sob minhas asas. Sei que não será por muito tempo, estou aprendendo a conviver com essa realidade. Oro todos os dias para que Deus dirija seus passos, e que seu caminho seja aquele traçado no céu. E hoje, no dia do seu aniversário, escrevo aqui, sem nem saber se ele vai ler... mas com o desejo imenso de que leia em meus olhos todo amor que sinto, todo o sentimento que tento expressar em palavras tão sem poesia. E quero que ele nunca se esqueça, sou muito mais feliz por ter tido esse filho, passado por toda aflição até conseguir tê-lo comigo. E como disse no depoimento pra ele, no orkut,

  • Um coração de ouro, que faz de tudo pra mostrar que é durão, mas eu sei que é só fachada...Meu companheiro, meu amigo, meu herói, o braço forte que eu preciso! O pescoço que eu gosto de cheirar, o magro que eu amo abraçar, o pedaço de mim que está mais perto agora... Filho, você sabe que o dia de hoje é especial para mim, mas mais ainda porque podemos saber que estaremos sempre juntos, atravessando as situações difíceis ou os momentos doces e de risos. E ainda que um dia haja distância física entre nós, tenha certeza que não vai fazer diferença para o nosso amor. I love You more than words can say!




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