19.6.06

Por que eu não estava com a minha câmera?

Já há algumas semanas eu desejei escrever sobre uma cena que vi no Jequitibá Plaza Shopping (Jatobá, para os íntimos) em Itabuna. Uma menininha, de uns 4 anos de idade ia entrando na Livraria Nobel, como se fosse o melhor lugar do mundo, e a mãe puxou a bichinha pelo braço, dizendo: aí não, venha pra cá!

Fiquei revoltada. Não tanto pelo fato, mas pelo princípio. (Essa é minha frase, desde muito tempo.) Quis escrever sobre o que significava uma criança se interessar espontaneamente por livros e uma mãe afastá-la deles. Talvez porque eu praticamente nasci numa biblioteca (literalmente) - minha mãe trabalhava na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, em Salvador, trabalhou até a semana do parto, e depois que acabou a licença-maternidade, ela me levava num carrinho pra lá. Depois viemos morar em Ilhéus, e a Biblioteca Régis Pacheco era quase a minha casa. Quase esqueci de falar da Biblioteca do Seminário Batista... essa marcou mesmo, porque eu andava tanto por lá, que comecei a namorar o pai de meus filhos nela! E mesmo depois, era um lugar onde eu sempre podia ser encontrada.

Assim, descobrir as grandes livrarias, que mantém um espaço como de uma biblioteca, pra mim foi algo especial. Desde a Livro 7 na Rua 7 de setembro, em Recife, na época de estudante, passando por outras até à Cultura do Recife antigo nos dias atuais, essas livrarias eram um paraíso pra mim. A Sciciliano e a Nobel também se mostraram muito interessantes, e embora eu nunca tivesse dinheiro suficiente pra comprar os livros que desejasse, passear em livraria era coisa normal pra mim. (A última vez na Cultura de Recife, em novembro passado, foi especial... passei o dia inteirinho lá, com Line e Loló...)

Quando vieram os filhos... eu continuei frequentando as livrarias de shopping, só que agora parava mais tempo na seção de livros infantis. E comprei pra eles todo tipo de livros, desde que eram bebês: de pano, de plástico, com texturas várias, com formatos diferenciados, em outros idiomas... Dessa forma, vocês podem perceber o tamanho da minha indignação ao ver a mãe arrastar a menininha que desejava entrar na livraria.

Hoje fui à Nobel daqui de Ilhéus, que nem chega aos pés das outras... tem só duas poltronas (bem confortáveis, não posso negar) e uma mesinha pra crianças. Fui lá pra procurar especificamente "Mentes Inquietas" de Ana Beatriz Silva, que trata de DDA (Doença de Déficit de Atenção), mas como sempre, fiquei olhando tudo, abri a agenda pra anotar os títulos interessantes e depois olhar na net se ficava mais barato. Peguei uns dois títulos, que terminei comprando (Por que você mente e eu acredito? de Prem Milan e A última grande lição, de Mitch Albom), e sentei numa das poltronas, pra dar uma fiscalizada e decidir se levava mesmo ou não. Foi aí que presenciei algo que encheu meu coração de alegria, e de uma nostalgia gostosa.Entrou uma garotinha fofa, vestida que nem criança (vestidinho florido e rodado), e foi direto pra prateleira de livros infantis. A mãe vinha atrás, e foi dizendo: "Olha, Júlia, tem livro novo!"

Parei minha leitura, e curti como se fosse um filme gostoso. Júlia escolhia os livros e a mãe pegava no alto, elas sentaram juntas na outra poltrona, e vi um pouco de mim naquela cena. A mãe (perguntei o nome, mas esqueci... :P) conversava com a menina, mostrando as coisas no livro, estimulando com perguntas, e que menina inteligente! Não resisti e perguntei quantos anos tinha (tinha 3), e se ela gostava de ler. Ela respondeu: "Adoro!" Detalhe: estava com o livrinho de cabeça pra baixo! Eu vi tudo: aquela vai ser uma ratinha de livraria! Vai saber a diferença entre os papéis e as encadernações, vai ter prazer em sentir o cheiro de livro novo, e mais do que tudo, vai amar ler!

Tive que dizer àquela mãe o quanto admirei presenciar aquela cena. E ela: "Ela gosta..." Eu: "Ela só gosta porque você deu a ela essa oportunidade, esse presente." Foi uma delícia ver que o futuro de Júlia certamente será povoado da mágica que só a viagem pela leitura pode trazer. Que ela vai ter a inteligência nata estimulada e desenvolvida, que aqueles olhinhos vão correr as palavras e gravar em sua mente muitas coisas preciosas que ninguém vai poder roubar. De novo, não o fato, mas o princípio... investir tempo e dinheiro na leitura é o melhor presente que uma mãe pode dar a um filho.

Hoje vejo os meus, que devoram tudo que encontram, e que escrevem bem (cadê minha modéstia, alguém viu?) cada um a seu modo. Os escritos dela podem ser conferidos aqui e os dele... geralmente ficção, ainda não alcançaram as fronteiras do blogworld, mas espero que um dia cheguem por aqui. Sei que tenho méritos nisso, e gosto de pensar que deixei uma boa herança, nesse aspecto. com certeza vamos todos colher os frutos, num futuro não muito longe: eu, meus filhotes, Júlia e a mamãe dela. (Não me perdoo por ter esquecido o nome daquela jovem mãe tão especial.)

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