7.7.06

ANNABEL LEE

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
A linda Annabel Lee,
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda Annabel Lee, a linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando Annabel Lee, a linda que eu soube amar

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda Annabel Lee;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda Annabel Lee
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

* Traduzido de Annabel Lee, de Edgard Allan Poe, por Fernando Pessoa.


Recebi a incumbência de procurar um conto de Poe pra Line, "O homem na multidão" e nessa busca encontrei o poema que deu o start à escolha do meu nome. No meu *álbum de bebê* tinha uma cópia, lembro dela, escrita à mão pela minha mãe, com a letra linda e redondinha dela. Mas eu mesma quando criança devo ter estragado, rasgado, sei lá. A lembrança que tenho é de que eu não gostei do que li. Acho que, menina, entendia que era eu, a própria que morria... Devo ter dado fim, mesmo, no papel. O fato é que não está mais lá. E hoje, encontrando o poema, desejei repartir com vocês. Um tanto triste, sim, sem final feliz... mas uma poesia intrínseca, que na tradução de Pessoa preservou a sonoridade e a beleza do original (veja aqui).

Puxa... só agora, lendo mais uma vez... percebi! A Annabel Lee de Poe não gostava de vento gelado!!! (que nem que eu!!!)

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