26.8.06

Chorei...

Peguei um taxi para o aeroporto Santos Dumont, que era pertinho, pra de lá pegar um ônibus expresso para o galeão. Como não fazia muita idéia do tempo que levaria, (as experiências com demora no trânsito do Rio não são muito interessantes...) fui bem mais cedo. Como sempre, Murphy deu as caras, e foi bem mais rápido do que o previsto. Fiquei lá, sem ter muito (ou nada) que fazer, a não ser o normal: entrar numa livraria.

Não era nenhuma Sciciliano, Cultura ou Nobel... a tal Sodiler, bem relentinha, mas tinha o livro que eu queria comprar já há algum tempo, Mentes Inquietas, de Ana Beatriz Silva. Já falei sobre ele, aqui, trata do DDA, Distúrbio de Déficit de Atenção, que tenho usado na maioria das vezes como piada, mas é coisa séria.

Comecei a ler desejando que minha atenção me provasse, naquele momento, que eu podia sim, levar a cabo uma leitura por cerca das duas horas que tinha de espera pela frente. Não precisei de grande esforço. Como a autora diz, quando um DDA tem real interesse por algo, é capaz de se prender a ele com atenção integral por horas - e até dias. É o chamado hiperfoco.

Não vou discorrer aqui sobre as características do distúrbio, (mas recomendo a leitura do livro) e sim quero repartir um pouco do que senti ao tomar consciência de muitas coisas relacionadas à minha vida - passado e presente - e tudo que isso gerou.

Já tinha visto na comunidade do orkut, TDAH - DDA - Mentes Inquietas um tópico onde as pessoas diziam ter chorado ao se descobrirem DDAs. Não sei os motivos de cada um... mas eu chorei, sim. Chorei sem lágrimas, talvez por uma certa vergonha de desabar em pleno Galeão, mas será que alguém iria se importar? Sem lágrimas, mas tenho certeza de que chorei.

É uma sensação estranha perceber que durante a vida inteira fui cobrada por coisas que eu REALMENTE não tinha condições de atender... E pensar que sofri as pressões de ser chamada de desorganizada, bagunceira, irresponsável... sem que as pessoas que me cobrassem isso tivessem a menor idéia de que não era por vontade - ou falta dela - que eu me comportava assim. As cenas da minha infância passaram na minha mente, meu quarto uma zona eterna, meu material escolar que nunca era encontrado na mochila nem no lugar onde deveria estar... até às declarações do Imposto de Renda, que sempre entrego na última hora e só Deus sabe como ainda não entrei numa fria total. Ao mesmo tempo lembro dos meus cadernos de música, impecáveis, passados a limpo mil vezes, e guardados até hoje, como prova de que um dia eu andei na linha. O tal do hiperfoco de novo.

Chorei de novo quando li sobre a impulsividade do DDA. "Disparou, depois pensou. E, com certeza, lamentou!". Fui taxada muitas vezes de grosseira, estúpida e afins. (Acreditem, e por pessoas que nem tinham motivos pra isso...) Fui lendo o capítulo 2, e vendo o quanto era absurdamente encaixada em tudo aquilo.

"Arriscaríamos dizer que DDAS jamais buscam a morte. Às vezes, quando mesmo sem querer chegam bem perto dela, não era para lá que se dirigiam, e sim para a vida, esta que para eles, de tão interessante, chega por vezes a doer. E é na busca dessa vida dentro da vida, que está o impulso mais forte de todo DDA. Para eles tudo é MUITO. Muita dor, muita alegria, muito prazer, muita fé, muito desespero."

Lembrei do depoimento de Renata no meu perfil do orkut:

"Com Anabel nada é mais ou menos. Ela não faz nada mais ou menos, não se dedica mais ou menos, não sorri mais ou menos, não chora mais ou menos, não critica mais ou menos, não abraça mais ou menos, não diz nada mais ou menos, não dá bronca mais ou menos, ela nem respira mais ou menos!!
Por isso é que ninguém gosta de Anabel mais ou menos! Ninguém a admira, ouve, entende mais ou menos. Porque tudo nela é intenso, radiante, forte. Não dá pra fazer mais ou menos parte do universo dela.
Bel é uma pessoa singular,complicada,idossincrática por natureza. Quem não gosta de Anabel é besta!" (20/09/2005)

Creio que poucas vezes alguém me definiu com tanta propriedade. E isso foi citado pelo meu ex, num dos momentos em que ele quis justificar a separação. (O mérito desta questão não vem ao caso, nem os outros motivos dela.) Tá, uma parte do livro fala sobre os relacionamentos afetivos dos DDAs. É difícil conviver, aceitar e amar um DDA. E hoje eu vejo que se o distúrbio for conhecido, não somente pelos próprios DDAs, mas por aqueles que convivem com eles, a vida de todos será diferente. Não quero dizer que TUDO seria mudado se EU ME CONHECESSE antes... mas certamente ALGO seria diferente.

O capítulo 3, Mulheres e DDA, começa com "As duas faces de Eva: a bela e a fera... e um certo soriso de quem nada quer. O sexo frágil não foge à luta, e nem só de cama vive a mulher! Por isso não provoque, é cor-de-rosa-choque." (Aliás, é fantástico, cada capítulo começa com um trecho de música, absolutamente adequado.) O subtítulo é "A Rainha do Lar em apuros". Preciso dizer mais alguma coisa????

"Como a mulher DDA muitas vezes falhará em meio a tantas exigências de meticulosidade [nos afazeres domésticos - a rotina - argh!] certamente sobrevirão a culpa e o ressentimento. Não só isso, mas também o dedo em riste acusador da família e da sociedade. Alguns dos ingredientes da receita da depressão e da ansiedade.
Por outro lado, a mãe e esposa DDA pode ser extremamente lúdica, criativa, divertida, amiga e cheia de pique. Seus filhos sabem que ela é incrível, que sua mamãe é demais. Que não brinca com eles para entretê-los somente, ela está ali brincando mesmo, de corpo e alma nas disputas
."

A continuação do texto, sobre a reação do marido é perfeita, mas não cabe mais, no meu caso.

Outra coisa que me fez chorar foi a parte sobre a comunicação afetiva. "Essa enxurrada de pensamentos acaba por criar uma disparidade entre o seu modo de pensar e a sua maneira de se expressar." E olha que eu sempre achei que me expunha o suficiente... mas creio que sou mesmo uma pessoa confusa, só que agora entendo os motivos e não vou me cobrar tanto.

Não sei como vai ser minha vida de agora em diante. Sei, no entanto, que tenho algo a fazer com o DDA que ainda está sob meus cuidados, e com a outra que num grau menor, pode também buscar entender suas distrações e avoamentos que, pelo menos eu não fiquei colocando como algo que é culpa dela. (Lembra dos copos que caem como que por mágica?) Vamos andando, queridos, a vida é mais do que bela, e nós temos tanto que viver...

"Eu vejo a vida melhor no futuro.
Eu vejo isto por cima do muro de hipocrisia
que insiste em nos rodear.
Eu vejo a vida mais clara e farta,
repleta de toda satisfação
que se tem direito,
do firmamento ao chão.
Eu quero crer no amor numa boa,
que isto valha pra qualquer pessoa
que realizar a força que tem uma paixão.

Eu vejo um novo começo de era
de gente fina, elegante e sincera
com habilidade
pra dizer mais sim do que não, não, não...
Hoje o tempo voa, amor,
escorre pelas mãos...
Mesmo sem se sentir
que não há tempo que volte, amor,
vamos viver tudo o que há pra viver!
Vamos nos permitir..."
Tempos Modernos - Lulu Santos


(Acho que Lulu também é DDA... )

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