25.10.06

Ouvido de passagem...

Resolvi hoje repartir com vocês umas bizarrices que tenho ouvido pela rua, nessa terra linda de meu Deus.

Hoje passei correndo pelo calçadão da R. Marquês de Paranaguá e me senti em plena SAARA. ("O" Saara é o deserto. "A" SAARA é a Sociedade dos Amigos da Adjacência da Rua da Alfândega) [Pros leitores de Além-mar, a SAARA é parte do cenário da novela das 7, Cobras e Lagartos e é o comércio mais completo e louco do Rio de Janeiro. Andei um bocado por lá...]

Sim, mas... Vinha eu meio-completamente zen, cheeeia de ânimo pra desfilar no calçadão, quando escuto: "3 é 12! 3 é 12! Foguinho mandou aproveitar! É Luxus, eu tenho, você não tem! Compre na Luxus, 3 é 12! Eu tenho, você não tem!"

Não sabia se ria ou se chorava. Só desejei não esquecer! O carinha (negro) tava de bigode pintado de amarelo (não posso dizer loiro), e com um colete ridículo, bem a cara do Foguinho. E oferecia 3 frigideiras em tamanhos diferentes, por 12 reais.

Achei que tinha sido o "ponto alto" do meu dia, ai ai ai... Mas na Praça da Prefeitura, ouvi um cara falando pra outro: "Eu queria uma mulher que saísse com outro, que me desse corno, mesmo! Nem pra isso eu tive sorte!" Dá pra acreditar? Eu ia passando, não tive coragem de voltar e encarar a criatura que desejou ser chifrudo. Os motivos? Nem imagino. Ou imagino. Vai ver que ele aprontou todas e queria ter o gostinho de estar do outro lado. Ou então quer se separar da mulher, mas tem algum motivo excuso, tipo se ele pedir a separação perde o direito à fortuna dela e o único jeito de sair com a grana seria se ela o traísse. Mas que doeu o ouvido ouvir essa frase, não posso negar.

Pensa que acabou? Que nada. No "27"... tá virando moda um menino (ou um revezamento de meninos - já vi 3 diferentes) entrar e em meio à turbulência e o enorme calor humano do "tijolo demográfico", recitar algo assim: "Boa tarde pessoal, /minha irmã e meu irmão / tô aqui pra lhe falar, /a vida na rua né mole não. / Eu não vou matar, / eu não vou róbar, / eu só vim pedir / a vocês pra me ajudar./ Pode ser 10 centavinho, / 20 centavinho, / 5 centavinho, / até um centavinho. / Eu tenho irmão passando fome / eu não tenho o que comer / eu podia tar matando / eu podia tar róbando... se você não pode chegar até aqui/ mande pelo irmãozinho do lado" ah, esqueci o resto, mas acho que todo mundo já ouviu algo semelhante... De novo não sabia se chorava ou se ria. As crianças (no máximo uns 9 anos - na aparência) decoram o texto rimado, declamam sem a mínima expressão, quase ninguém dá nada (eu não dou) e eles saltam no ponto seguinte pra entrar em outro ônibus. Ás vezes eu acho que isso é estratégia pra andar de ônibus sem pagar...

[Ontem à noite desejei pedir por telefone um lanche no Larika's, um trailler de sanduíches deliciosos, mas não tinha $$ suficiente. Será que daria certo se eu pedisse, e quando o motoboy trouxesse, eu dissesse a ele: "Eu não vou matar, eu não vou róbar, mas eu também não vou pagar..."]


Ah, mas o que tá perturbando meu ouvido é a frase: "Eu sou um brasileiro de verdade. Eu existo". [Me lembrou a verificação do Orkut: "Você é uma pessoa de verdade? Digite a palavra ao lado" E no site da UFPE, ainda tem: "Digite a palavra mágica que vê ao lado". ] Acho que a acessoria de comunicação do Governo Federal (ou do TRE, whatever) tem a impressão que os telespectadores são qualquer coisa como idiotas...

Minha paciência tá em falta... E tô fazendo coro com Lenine:

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma,
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma,
A vida não para.
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa.
A vida e tão rara...
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal,
Eu finjo ter paciência...
O mundo vai girando cada vez mais veloz.
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...
Será que é o tempo que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara...

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