4.11.06

Mar português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosse nosso, ó mar!
Valeu à pena?
Tudo vale à pena
Se a alma não é pequena
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e abismo deu
Mas nele que espelhou o céu. (Fernando Pessoa)

Eu me entristeço de que apenas a frase "Tudo vale à pena..." seja tão conhecida. Longe do contexto ela perde tanto... O mar, palco das grandes descobertas, de novos mundos abertos, precisou ser regado por tantas lágrimas... de mães, esposas, noivas, filhos... E então chega à questão: VALEU À PENA? Só aí a frase que todo mundo cita teria seu sentido completo. E em sua continuidade, o poeta coloca que pra chegar a um objetivo maior, é preciso transpor a dor. Aguentar o "meio" pra chegar a um "fim". E perceber depois que ao tempo em que o mar é "perigo" e "abismo", é também espelho do céu.

Hoje vi o meu mar numa cor tão diferente, tão feia, marrom, quase vermelha... que pensei: será que foi "só" chuva, que fez isso? Poderia ter sido "algo mais"... como lágrimas de sangue... e aí lembrei do poema. Estava sem a câmera pra registrar, se der mais tarde ainda volto lá.

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