17.11.06

Quase um ano...

"Eu só escrevo quando eu quero, eu sou uma amadora e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então em relação ao outro. Agora, eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade".

(Clarice Lispector - mas podia ter sido eu.)

Escrevo assim: como terapia.
Sem obrigações,
nem comigo mesma nem com ninguém.
Gosto, e quando consigo, escrevo.
Mil coisas na cabeça ao mesmo tempo,
e quase nunca é possível transformá-las em palavras.
De vez em quando, acho que acerto a mão.
Outras vezes, parece que falta de talento a inspiração,
mas nunca vontade. Ou prazer.
De vez em quando sou dona das palavras,
outras vezes, elas me dominam.
De vez em quando leio e gosto,
outras vezes, nem li, já amei... ou detestei.
(Só não existem as vezes que não leio.)
De vez em quando o texto borbulha como um minadouro,
bolhinha de água na areia...
palavra por palavra, escrevendo e apagando vezes sem conta.
Outras vezes, rola como cachoeira,
levando pela frente o que encontra.
Mas, como o rio, nunca volta atrás.
De vez em quando é vento calmo,
em forma de palavras de amor, carinho, cuidado.
Outras vezes, é um raio, uma bomba,
em explosão e expressão de raiva, angústia, desespero.
De vez em quando o texto é meu, de mais ninguém.
Outras vezes me aproprio de palavras já ditas,
transformando muitas vezes as emoções de outro
e dando a elas a minha cor.
Não tenho vergonha de copiar um trecho de música, uma canção...
Pois quem garante que aquilo que digo como "meu" hoje,
também não pode amanhã ser "de outro alguém"?
"...Mas podia ter sido eu"...
É o que penso mil vezes, quando leio ou ouço
seja prosa ou poesia,
signos que se tornam símbolos do meu sentir.
Escrevo.
Quem vai ler? Não sei.
Posso, no máximo, imaginar. Ou desejar.
Ou desejar que não leiam.
Mas... se quiser...
Eu deixo.
E nem cobro.


Lente

Mudou a minha lente...
de repente ficou tudo maior.
Mudou a sua lente...
de repente ficou tudo menor.
Mudou a nossa lente...
é, ficou tudo do tamanho da gente.

A lente não mente,
mente quem está detrás da lente.
A lente não mente,
objeto transparente.
Me deixe ver
o que sempre foi aparente...

Mudou a minha lente...
de repente ficou tudo diferente.
Mudou a sua lente...
você estranha o que vê à sua frente.
Mudou a nossa lente...
agora você vê e eu te vejo claramente.


A lente não sente,
sente quem está detrás da lente.
A lente não sente,
objeto transparente,
me deixe ver
qualquer coisa que eu invente.

Depende do ponto de vista,
depende do ângulo certo.
Deixe que eu veja, observe
um pouco mais longe,
um pouco mais perto.
Mas vitrine é vitrine,
(depende do ângulo certo)
Às vezes me confunde,
às vezes me define...

(Frejat / Arnaldo Antunes)

Esse bem que podia ser o post de aniversário do "Deixo ler". Afinal de contas fala de mim e de como me sinto em escrever... o que penso quando sendo diante do computador e o teclado se abre pra mim num sorriso. Mas não é. (Ainda faltam alguns dias para esse meu divã-não-tão-particular completar um ano!!! Ao mesmo tempo em que "parece que foi ontem", parece que tem uma vida inteira...)

Anyway... escrevi, e vou publicar. Quem garante que estarei viva daqui a 12 dias? Hoje eu deveria escrever sobre a alegria da proximidade com ela, ou sobre os passeios e as fotos lindas no Solar do Unhão e no centro histórico de Salvador. Mas, não. Deixa assim. Quem sabe amanhã eu não falo disso e mostro as fotos?

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