14.1.07

Queria escrever como Isabel Allende...

Já tinha lido "A Casa dos Espíritos", mas não lembrava como era bom ler a chilena que nasceu no Peru. Nas duas tardes na Cultura li "Zorro" quase todo... faltavam umas 20 páginas quando tive que sair... e fiquei sem saber o fim da história, e nem QUEM escrevia. Só quem ler o livro vai entender o que estou falando, mas garanto que vale à pena. Ela não é nada sucinta, escreve muuuuito, e descreve com ínfimos detalhes toda a cena, não somente física e material, mas psicológica, emocional e espiritual. Para contar a história do nascimento da lenda do Zorro, ela foi buscar a origem da mãe, numa tribo de índios... e do pai, na Espanha. E viajou - me levando junto - pelas crenças e costumes de vários povos e grupos étnicos, durante o livro... Indígenas, jesuítas (tá, jesuítas não são um "grupo étnico", sei lá o que são....) espanhóis da Alta Califórnia, marinheiros, ciganos euroupeus, piratas, franceses do tempo da revolução de 1789, espanhóis a favor ou contra a volta de Fernando VI (ou seria VII?) ao trono, enfim.... uma viagem no tempo e pelo mundo do século XVIII. Fantástico. Mas ficou faltando o final. E é aí que eu entro...

Queria escrever como ela, e descrever minhas últimas 24 horas. Mas pra isso precisaria explicar a situação socio-econômica do Brasil do século XXI, a crise dos controladores de vôo, minha história de amor e ódio com a hipoglicemia e minhas "auras" quanto aos desmaios iminentes... E é assim que me perco. Jamais conseguiria... e depois, com certeza ainda teria gente pra reclamar que o texto está looongo... Mas se escrevesse como ela... não era pra ninguém reclamar. Afinal de contas li mais de 400 páginas em "duas sentadas" numa poltrona extremamente desconfortável, e nem pensei em reclamar.

Sim, mas... voltando, os leitores de hoje sabem a quantas anda a economia nacional - e fazem idéia da minha - e a crise da aviação brasileira não é novidade pra ninguém. Então, considerando que se um dia esses escritos virarem livro eu farei uma revisão e um apêndice sobre esse assunto, vamos pular esta parte em pormenores. Direi somente que a passagem Salvador/Recife mudava de R$100,00 pra R$275,00 de acordo com o horário. E que de Salvador pra Ilhéus só tem um horário. Então... tanto pra ir quanto pra voltar, precisei pernoitar em Salvador. Na ida, tive quem me buscasse no aeroporto, quem me desse guarida, quem me levasse de volta... Mas na viagem de volta, cada um dos meus contatos teve uma impossibilidade, e como o vôo atrasou demaaais, e ia chegar de madrugada, achei que não era legal pedir a alguém que me esperasse indefinidamente naquela lonjura que é o Aeroporto Dois de Julho (nada de Luís Eduardo Magalhães), e depois ainda acordar cedão no domingo pra me levar de volta.

Me preparei psicologica e logisticamente pra passar a noite em claro, ou dormir num dos bancos do aeroporto, torcendo pra não ter uma confusão maior e não ter televisão gravando, e pra que os atrasos dos meus vôos me permitissem pelo menos chegar em casa em paz, sem maiores problemas, ainda no domingo. Passei a noite escrevendo este post mentalmente... sem qualquer êxito. Está completamente diferente do que imaginei. E ainda nem comecei a contar a história!!!

E estou vendo que vou ficar sem contar... mas posso dizer: a noite que passei no aeroporto de Salvador está longe de entrar pra lista das piores de minha vida. Conversei com gente interessante, e descobri que situações-limite que unem as pessoas em aflição fazem quebrar a resistência, os sorrisos ficam mais fáceis, as palavras mais doces e a paciência maior. Eu e minha língua solta fizemos amizades durante essa noite com pessoas muuuito diferentes de mim, muuuito semelhantes e até com uma incógnita dentista de Natal, que não consegui decifrar... Com os mesmos gostos musicais que eu, uma cultura geral surpreendente, às vezes parecia que ia "se aproximar" e em outras se fechava em copas. É, as pessoas são mesmo especiais em sua singularidade.

Assisti o DVD de Maria Bethânia, na companhia dessa dentista, e depois de lanchar no Bob's assistindo Chaves às 3 da manhã, encontrei um banco sobrando, me acomodei com uma mochila sob a cabeça e outra sob as pernas, catei uma blusa de manga na sacola , vesti por cima da que eu estava, e ouvindo MPB variada na frente da loja de CDs, dormi um bocadinho. Quando amanheceu e a livraria abriu, fui procurar o "Zorro" pra ler o final. Triste ilusão! Nã tinha! Mas peguei "Eva Luna" da mesma Allende, e comecei a ler, desta vez, em pé. Imagino que fiquei quase uma hora lendo, quando percebi que algo estava errado. A sensação de desfalecimento que já conheço tanto, veio com força. Olhei em volta e vi um café. Mirei nas mesinhas e disparei pra lá, empurrando o carrinho com a bagagem. Mal deu tempo de sentar e anunciar ao casal da mesa ao lado: "Estou passando mal e vou desmaiar. Por favor, me segurem, se eu cair." E apaguei. Não sei quanto tempo fiquei inconsciente, mas foi o suficiente para ter um dos seguranças do aeroporto do meu lado, quando recobrei os sentidos, já completamente vomitada. Ecaaaa!!! Vi a blusa suja e pedi um guardanapo ao garçon. Enquanto me limpava, a moça que me ajudou disse: "Está sujo aqui do outro lado, também." Aaaahhh... Não tinha quase nada que não estivesse sujo!!! Blusa, calça, cabelo, braço... só conseguia pensar que precisava de um banho. Guardanapo nenhum daria jeito naquilo! Mas as pessoas continuavam me perguntando se eu estava bem, qual o meu vôo, será que daria tempo pra pegá-lo, qual a companhia aéra... Logo apareceu um funcionário da Gol com uma cadeira de rodas, e começou meu mico. Atravessar o aeroporto inteiro - a livraria é numa ponta e o posto de Primeiros Socorros na outra - numa cadeira de rodas completamente vomitada e chamando a atenção de todo mundo - pelo menos foi como me senti.

No posto, a médica de plantão já devia saber que esse tipo de insisposição é comum em quem passa muito tempo à toa num aeroporto, porque quando eu cheguei lá, foi logo perguntando: "Você está aqui desde quando?" Quando respondi que desde a noite anterior, ela só ofereceu o chuveiro e uma toalha, e perguntou se eu podia ir ao banheiro sozinha. Super gente boa, compreensiva... (ainda bem que era médica de gente e não vet, né?) Mas passar na frente do Bob's depois disso me provocou uma aflição imensa, só o cheiro da batatinha me desesperava. Um pouco mais tarde consegui comer um pão recheado de creme de queijo e tomar uma coca... mas pelo menos tive atendimento preferencial no check in e poltrona na frente, entrada junto com as gestantes e idosos... Pra alguma coisa tinha que servir, além de fazer vocês darem umas risadas às minhas custas. Porque essa faz parte da série "seria cômico se não fosse tgrágico"!!!

Já na sala de embarque, esperando o vôo pra Ilhéus (que saiu no horário uhúúúú!!!) conversei com uma ilheense que passou um tempo em Madrid, e ela achou que tinha "sofrido" muito na viagem... mas quando eu contei minhas peripécias... ela riu e disse que eu estava "na frente"! Mas aí apareceu uma manauara, que ganhou de nós duas... com mais de 24h de aeroporto, entrando em avião que não decolou, indo pra São Paulo pra pegar um vôo pra Ilhéus, e perdendo o vôo de lá... enfim, um gravador numa hora dessas faria render uma bela minissérie de histórias pessoais intercruzadas num aeroporto.

Bem, mesmo não sendo Isabel Allende nem escrevendo como ela, consegui ser mais falante do que o normal (será?) e já comecei a ficar aflita, pois amanhã é o aniversário da Karine, e ela pediu que eu escrevesse um post lá no Vôo da Borboleta e acabou de me lembrar agora. Claro que ainda não escrevi, e vou devolver a ela o que me fez passar no dia da festa aqui no blog. Hehehehe... ("por isso eu sou vingativa, por isso eu sou vingativa...") Que nada. Tô pregada de cansada, ainda consegui ir à igreja à noite, e agora tenho que ir dormir, de verdade.

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