10.2.07

Cem anos de frevo

Nenhuma relação com "Cem anos de solidão". Porque o frevo jamais será uma dança solitária, apesar de se poder dançar sozinho. O dia de ontem foi o centenário oficial do frevo. Em 9 de fevereiro de 1907 a palavra "frevo" apareceu pela primeira vez impressa num jornal do Recife.

Eu morei por 5 anos em Recife, e depois disso nunca mais me desliguei de lá, eram obrigatórias as visitas anuais nas férias, e mais algumas esporádicas. O meu primeiro carnaval lá, passei numa casa de praia em Candeias. No segundo, fui com o pessoal da Igreja de Afogados pra um retiro numa praia perto de Gaibu (foi lá que ouvi "O Caderno" pela prmeira vez, lembro como se fosse hoje), e nem vi o Galo da Madrugada passar, ou ouvi Vassourinhas ou coisa que o valha. Frevo pra mim era algo distante e ignorado. No ano seguinte passei carnaval aqui. Mas no carnaval de 87 passei mal no Acampamento Palavra da Vida e voltamos pra casa. Nesse ano assisti todo o desfile das escolas de samba do Rio pela tv... e vi o carnaval de Recife pela janela de casa. Um mar de gente, e entendi o porquê de se chamar "bloco": Eu ia dizer "um bloco compacto de pessoas".

E foi aí que ouvi e prestei atenção ao frevo pela primeira vez. A frevioca que rodava pela praia de Boa Viagem, meio trio-elétrico meio orquestra de sopros me chamou a atenção. No semestre seguinte, fiz uma disciplina o curso de Educação Artística da UFPE chamada "folclore brasileiro". A professora, (esqueci o nome) era uma senhora com mais de 60 anos, e com uma vitalidade incrível. A mulher dançou frevo pra a gente ver, e deu aula. Explicou os passos (são mais de 100 mas eu só me lembro da "tesoura", do "parafuso" e da "locomotiva"), explicou que a sombrinha era só pra ajudar no equilíbrio, e contou que antigamente eram guarda-chuvas normais, pretos e grandes. Depois é que se tornaram as sombrinhas pequenas e coloridas. Fiquei deslumbrada! (Já comentei aqui que não sei dançar absolutamente NADA, mas que adoro ver dançar, especialmente quando é dança "organizada", e não simplesmente "se mexer à toa".)

A partir daí, fiquei "de orelha em pé" pra o frevo. Até que um dia perdi a melhor chance que poderia ter na vida de aprender a dançar. Num dos verões aí pra trás, resolvi que iria levar os filhotes pra conhecerem Recife e Olinda como turistas. Afinal de contas, eles iam pra lá todo ano, mas os passeios eram só praia e shopping. Então, passeando pela Sé em Olinda, encontramos um grupo dançando e dando aula na praça. Sentamos, comendo queijo coalho assado na brasa (naquele tempo não era comum na praia como é hoje, era coisa que só se via por lá...) e assistindo à aula. O professor, pacientemente mostrava como colocar o pé, contando: "ponta, calcanhar, direita, esquerda" ou seja lá como for, que não lembro agora. E as sombrinhas e sapatilhas eram colocadas à disposição dos turistas que quisessem aprender. Ah, maldita vergonha que não me deixou experimentar o gostinho de frevar!!!! Mas acho que não foi só vergonha, não... eu não tinha o mínimo preparo físico pra aquele "abaixa-levanta" frenético, que faz o sangue ferver, mesmo. Lindo demaaaais ver os passos todos iguaizinhos, como um balé (e o Balé Popular do Recife é uma coisa de louco!!!), adultos e crianças no mesmo movimento...

[Sim, sim, tenho fotos. Mas onde estão? Lá em cima, no 3° andar, em um dos mais de 200 álbuns... não, não vou procurar agora, não. ]

Nas férias passadas, em Curitiba, Doda levou o DVD de Antônio Nóbrega, um "brincante" como ele mesmo se diz, e entre outras coisas, matei a saudade do frevo puro.

Ontem foi a comemoração oficial no Marco Zero dos 100 anos do frevo. Perguntei a Line: "Por que você não foi?" (Assistir o show com Maria Rita, Lenine, Elba, Geraldo Azevedo, Alceu Valença e mais não sei quem) E a resposta: "Porque não tinha companhia. Todo mundo tem mãe pra não deixar ir, né?" É, e a mãe dela certamente iria junto. (É surtada, como ela mesma diz.)

E pensar que carnaval por aqui é só axé, arrocha e afins... ("Ê saudade, que bate no meu coração...")

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