13.2.07

Felicidade Clandestina

(- Texto de Clarice Lispector - o meu vem abaixo da foto!)

"Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte.

Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo.

E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante."


Clarice Lispector In Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro, Rocco, 1998.

Ah, como eu entendi este conto!!! Por todos os detalhes, pelo amor à leitura, pelo desejo simplesmente de ler, dispensando mesmo o TER o livro... Pelo pensamento de menina... Pela persistência ingênua, que se permitia enganar...

Em menina, eu adorava ler quadrinhos. Fossem quais fossem. Sem preferências. Desde "Os Sobrinhos do Capitão" (traí minha idade, agora!), Recruta Zero, Fantasma, A turma da Mônica, todos da Disney, e uns de Western que não lembro o nome agora, mas eram como uns livrinhos de bolso, com uma única história. E esse tesouro todo se encontrava na casa de tio Leandro. Um paraíso fantástico, que jamais seria esgotado. Além de comprar todo tipo de revistinha (eu me recusava a chamar "gibi" como todo mundo), ele ainda tinha um acordo escuso e incompreensível para mim com o dono da distribuidora de revistas, e ganhava de graça revistinhas que tivessem a capa estragada ou qualquer defeito, no manuseio até chegar à banca.

Eu perdia horas sentada diante da estante ou nos degraus da escada da casa dele, enquanto sei-lá o que estava acontecendo, e lá ficava esquecida, muitas vezes até à hora dos donos da casa irem dormir e meus pais ainda não terem ido me buscar. Eu era como Clarice, uma devoradora. Não satisfeita com as incursões à biblioteca do tio, eu tinha outro expediente: lia as revistinhas na banca, na pracinha perto da Primeira Igreja Batista. O culto terminava e os adultos ficavam conversando na frente da igreja e eu pulava pra junto da banca. Se o dono ficava zangado ou chateado, eu nem notava. E se notasse, fazia de conta que não era comigo. (Muitas vezes eu notava, sim, mas preferia não entender.)

Foi na banca de revistas que adquiri sem saber o hábito da leitura dinâmica. Lia muito, e rápido, com medo de ouvir a buzina do carro e ter que largar uma história pelo meio. Meu apelido ficou sendo "leitura dinâmica", e eu não me importava que falassem disso com desdém, ou com uma ponta de maldade, porque meu pai se recusava a comprar as revistinhas, pois dizia: "Você lê tão rápido, que nem vale à pena comprar." Realmente, seria um gasto estúpido, porque pra me satisfazer não seriam duas nem três revistinhas diárias.

Não me lembro exatamente quando, mas chegou a vez de "Seleções". Encontrei uma porção de exemplares antigos, da década de 50, que minha mãe lia e guardava. E sempre achei perfeito o subtítulo da revista: "Artigos de interesse permanente". Eu lia revistas de quase 20 anos atrás, com o mesmo gosto com que lia as revistinhas da semana. E relia. Mil vezes. Achava, na época, que era só por prazer. Hoje eu sei que tem a ver com o Distúrbio de Déficit de Atenção, que faz com que eu releia incontáveis vezes como se fosse sempre a primeira, e isso com textos didáticos, romances, cartas e até mesmo os meus próprios escritos.

Hoje retomei o velho hábito de não comprar e ainda assim ler. As tardes na Cultura ou na Nobel trazem um sabor gostoso de saudade de uma parte boa da minha infância. E ler "Budapeste" todinho, hoje à tarde/noite me trouxe até a "voia" de escrever. E uma alegria enorme depois de ler um livro sobre um escritor e suas leituras, e depois este conto de Clarice... ah, abençoada história, a minha, permeada de livros, histórias e revistas em quadrinhos!!!




E tomo a liberdade de pegar das mãos de Clarice a sua máquina de datilografia, semelhante à minha Olivetti lettera 31 que usava assim mesmo, sobre as pernas, (e não serviu para colocar no papel nenhum precioso escrito meu, além das duas primeiras monografias de minha vida, uma sobre a doutrina Calvinista da Predestinação e outra sobre os Chorinhos de Heitor Villa Lobos. E não me perguntem onde elas estão agora) pra fazer de conta que escrevi este conto sobre a Felicidade Clandestina, que era a que sentia em pé na banca de revistas. Então, do lado do nome da autora, deve estar: "Clarice Lispector. Mas podia ter sido eu."

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