3.3.07

O ano em que meus pais saíram de férias

Fui ao cinema sozinha, de novo, novamente, outra vez. Não é que eu prefira, mas ultimamente as companhias estão furando... e eu não gosto de perder as poucas oportunidades de assistir filmes bons. "Bons?" perguntará você. "Cinema nacional?" Pois é, apesar da grande melhora no nível do cinema brasileiro, ainda tem gente atolada de preconceito que não assiste pelo simples fato de ser produção tupiniquim. (Meu filho, incluído nessa lista)

Nem vou discutir essa parte, mas tenho que dizer que não assisti esse filme em novembro, em Salvador, porque a opinião da uma amiga de uma amiga foi: "é tão chato que eu saí no meio". Bom, eu não conhecia a criatura opinante, mas acho que pra sair no meio de um filme deve ser muito ruim mesmo. E ainda o complemento: "não passa nada sobre a história da época, a política... só cenas do menino, o menino jogando bola, o menino fritando ovo..." Só não me arrependi completamente porque em vez desse assisti "O grande truque".


Mas então... seguindo o pensamento de Renata, eu tenho que "não gostar com meus próprios olhos e ouvidos", e fui assistir. Foi realmente algo completamente diferente do que eu imaginei. Lógico que já sabia que não tinha muita AÇÃO, nem debates políticos sugeridos, mas não esperava toda uma contextualização judaica num filme sobre os anos de chumbo.

Sinopse (minha): Um casal de ativistas políticos resolve fugir da ditadura militar no início de 1970, em Belo Horizonte, e deixa o filho de 10 anos com o avô paterno em São Paulo, no bairro do Bom Retiro, uma colônia judaica. Deixam o menino na porta do edifício do avô e vão embora, sem saber que o avô acabou de morrer (do coração) naquele mesmo dia. então um vizinho idoso acolhe o menino e o filme se desenrola sob a percepção que esse menino tem do que aconteceu naquele ano em que os pais "saíram de férias".

A reclamação de que não tem nada explícito procede. Mas de que o filme é chato, eu discordo. A ambientação foi perfeita. A casa do avô Mótel era muito parecida com a da minha avó Rosália, em Salvador, apesar de ser um edifício (a da minha avó parecia uma floresta) e muito sombria (lá era bem claro, aberto, cheio de flores, plantas, bichos, piano...).

Se tem algo que eu me lembro nitidamente da minha infância, é o ano de 1970. Primeiro, lembro de meu pai me ensinando a mudança de 69 pra 70... eu ia fazer 5 anos e tinha acabado de aprender a ler. Depois lembro de assistir os jogos da copa do México, numa cadeira de balanço no colo da minha mãe, e ela vibrar tanto que caímos pra trás com cadeira e tudo, no último gol do Brasil contra a Tchecslováquia. Eu lembro, sim, lembro com muita nitidez. E quando falo da ambientação... o relógio de parede e o relógio em cima do móvel da sala eram iguaizinhos aos de vovó. O sofá... a geladeira... o casaquinho das velhinhas, os carros na rua (lembrei da "Amélia"do "Bigú" e do Dino", os carros que meu pai teve na minha infância). Podem reclamar: saudosismo do bom!!!

O monte de meninos brincando na rua me lembra a casa da minha avó Alzira, aqui em Ilhéus. O telefone preto e pesadão, com disco para os números, a cama de madeira entalhada... As roupas da menina Hanna indo à sinagoga... eu tive um "mantô" igualzinho!!!

Mas... pra quem não viveu a época e queria conhecer um pouco da história do Brasil através do filme, ficaria decepcionado, mesmo. As coisas apareceram, sim, mas em detalhes tão sutis, que penso que quem não sabe, fica sem saber. A importância dada à Copa do Mundo, para tirar a atenção do povo do que acontecia nos porões do DOI-CODI e na polícia política... a entonação dos atores (quase todos absolutamente desconhecidos) ao dizerem certas palavras... os olhares dos militantes, os papeizinhos passados discretamente... o telefone que nunca tocava, as cartas que nunca chegavam...e a frase do menino, quando diz: "vou me lembrar do ano de 1970... quando sem saber eu me tornei um exilado. Exilado é quando o pai da gente sai de casa, e fica tão atrasado que a gente nem sabe se ele vai voltar."

Não chorei, não... (porque eu não sou disso), mas bem que tive vontade. Ao me ver como mãe, ao me lembrar como criança, ao pensar em tanta coisa que aconteceu...

Sim, esperei encontrar Chico na trilha sonora... e nada! Como assim, Bial? Ditadura sem Chico? Pois é. Trilha sonora apenas com músicas judaicas. E casaram perfeitamente. Adorei a música melancólica enquanto passavam as imagens da comemoração do Tri no México, sem o som original, Carlos Alberto levantando a taça Jules Rimet em câmera lenta, e a música tristemente doce...

Aos que tem mais de 40 e não foram alienados em sua adolescência... recomendo. Vão gostar. Aos que têm menos de 40, recomendo que assistam em DVD, e de preferência com alguém mais velho, e comentando. A quem não sabe do que eu estou falando, digo: você vai dormir ou sair no meio. A vida do menino é realmente muito chata. E não tem final feliz, se é que alguém pensa que uma história que se passa em 1970 poderia ter.

Depois assisti em DVD uma outra produção nacional: "Domésticas - o filme". Muuuito interessante. Um típico "docu-drama". Atores desconhecidos (não li nada a respeito, mas me arrisco a dizer que algumas eram domésticas de verdade), alternando depoimentos direto para a câmera, como se tivessem sido questionados sobre assuntos específicos, mil histórias entrelaçadas de domésticas (mas inclui porteiro, lavador de carro, entregador de pizza e outros), e não aparece absolutamente um patrão.

Os patrões e patroas só são vistos pelos olhos dos empregados. Até depoimentos na delegacia (por conta de um roubo perfeito, enquanto uma empregada tapada estava sozinha em casa) foram dados sem que aparecesse um policial. E a mistura das várias falas, aparentemente sem nexo, mas completamente coerentes... fazem do filme uma comédia trágica. Sim, não deixa de ser comédia, mas é desumano não enxergar a realidade que ele mostra. Nenhuma mentira. A vida dura de pegar ônibus, ralar o dia inteiro, e encontrar um marido "parado" em casa ou simplesmente sonhar com o príncipe encantado ou a carreira de modelo que nunca vêm... A filha que some, a tonta que nunca pára num emprego, a que se "está doméstica mas não é doméstica"... todas são personagens da vida real.

Só é um pouco radical, pois não mostra uma empregada satisfeita, não com a sua situação, pois como uma delas diz, "nenhuma criança quando é perguntada sobre o que quer ser quando crescer, diz: quero ser empregada doméstica", mas nenhuma satisfeita com a patroa.

Bem, desse mal eu não padeço. Em 20 anos, tive 5 amigas que trabalharam em minha casa. E mais umas 3 que não passaram poucos dias, mas essas eu nem conto. Madalena, Nalva, Marlene, Maria e Vera foram (Vera ainda é) meus braços e minhas pernas. Perfeitas não são, como eu também não me arvoro em ser. Mas Madalena saiu pra casar, Nalva eu "dei" pra ir pro exterior com Rosane, como babá de Éric, Maria foi forçada a sair do emprego pelo marido louco e ciumento, e Marlene... foi a única que dispensei porque o salário não era suficiente pra ela, ela precisava levar algo mais da minha dispensa... e aí não dava, né? A Vera está comigo há 3 anos, e espero que fique muitos outros. Compartilha comigo das aflições dela, e me ouve, também... mas somente quando estamos a sós. é incapaz de interferir numa conversa, ou de passar do limite seja em que situação for. É ela que sabe onde está absolutamente tudo aqui em casa, e eu dei um celular pra poder ligar pra ela na hora do desespero e perguntar: "onde está aquilo assim, assim...?" e ela me dizer exatamente onde está. Seja uma blusa, um documento, um CD ou um remédio.

É, eu tenho sorte. Mas sem falsa modéstia, acho que quem trabalha pra mim tem sorte também. Porque a patroa que não gosta do serviço doméstico valoriza quem faz. E paga o justo, assina carteira e cumpre todas as obrigações trabalhistas sem reclamar. E joga suas mãos para o céu e agradece, porque não é por acaso que se tem alguém que você gostaria que estivesse sempre com você...

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