24.5.07

A moça de verde

Quando ele olhou, o carro já havia passado. Ficou só o rastro de poeira levantada na rua descalça. O que estaria fazendo um carro "de rico" por ali, em plena terça à tarde? Saiu chutando uma banda de laranja chupada, desejando que ainda tivesse algo pra molhar seus lábios ressecados.

O carro parou lá adiante. E ele apressou o passo. Curiosidade de menino. Mas não deu pra ouvir o que a moça de vestido verde e salto alto conversou com a dona da loja de tecidos na esquina. O carro partiu novamente. Outros meninos se juntaram na mesma curiosidade. E um mais afoito, perguntou à única que tivera contato com a moça rica: "Colé a parada, dona Linda? Qué que vai rolar?" Pra não receber resposta alguma, lógico. Um "sai daqui moleque" foi o máximo que ele conseguiu.

Durante as próximas duas décadas ele iria sonhar que o carro chique voltaria, e a moça de verde não somente apareceria, como era ele a quem ela buscava. Sonhou com aquele rosto que não viu, com o cheiro que não sentiu, e jamais se entregou a uma paixão de verdade, esperando que seu sonho se tornasse real. Mas foi aquela visão lá longe, de um passado que não houve, que deu força pra que ele sobrevivesse, e enfrentasse o mundo com uma gana até então desconhecida por aquelas bandas.

Nunca encontrou a moça de verde, que àquela altura não era mais tão moça e certamente o verde já teria saído de moda (e entrado de novo umas tantas vezes). E ele já não era mais um menino descalço e sem futuro, mas um homem feito, raçudo e jurou a si mesmo que se um dia voltasse de carro à sua rua (já não mais descalça), iria olhar atentamente às crianças em volta... e diria que os sonhos podem, sim, se tornar reais... mesmo que não sejam exatamente como foram sonhados.

Nenhum comentário: