19.5.07

Valsinha

Eu vou e volto, e tenho algo a dizer sobre ele. Tá, dessa vez vocês vão ter que me desculpar, como diz Line, estou em lua-de-mel com ele: 4 DVDs é material mais do que suficiente pra muitos posts! Se bem que a origem desse post foi um e-mail recebido de Malu, que não dava pra não repartir com vocês.

A História da Música sempre foi algo que me fascinou, mesmo no tempo das aulas às 7 da madrugada com Gamaliel Perrucci e nos "dias de ouvir" eu cochilava nas almofadas da sala de som. Mas não a História da Música cheia de datas e características pra serem decoradas. A história das músicas, sim. Pois então... o que vem a seguir é a história de "Valsinha" (ouça aqui). Acho que eu ouvi pela primeira vez em... 1977. Junto com mais algumas, numa fita K7 contrabandeada pelas primas que vieram da capital passar as férias. Foi o suficiente. Me apaixonei. E com o pai militar e rígido que eu tinha, não dava pra assumir a paixão. Era secreta mesmo. Ouvia a fita nas madrugadas sem sono e copiava as letras nos cadernos, como se fossem um tesouro, ou cartas de amor que eu tivesse recebido.

Conhecer o processo de criação de "Valsinha" foi algo que me tocou profundamente. A gente não faz idéia do que se passa numa parceria musical, quando se resolve trocar uma palavra. E o que é mais belo: as justificativas que se dá pra se mexer ou não numa letra de música. E essa é diferente: Chico fez a letra, Vinícius fez a música (geralmente era o contrário) Chico escreveu, Vinícius "apertou", Vinícius quis mudar, mas Chico sentia o público. Quisera que tivéssemos a possibilidade de viver os dois lados da moeda, assim... a razão, e a emoção. O que se poderia chamar de razão emocional. Foi o que deu o resultado perfeito de "Valsinha".

Bem, chega de lero-lero, estão aí as duas cartas,
que foram cedidas pelo Chico para o Caique Botkay, que as publicou no livro Achados, que é uma coletânea de coisas que jamais seriam publicadas. Todos os "achados" são inéditos e não estão publicados em nenhum outro lugar.


"DE VINÍCIUS DE MORAES PARA CHICO BUARQUE

Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971

Chiquérrimo,

Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. Mandei-a em carta a você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio [Buarque de Hollanda] morava em Buri, 11, e lá se foi a carta para Buri, 11.

Mas, como você me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra para ver se você concorda com as modificações feitas.

Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor essas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de "Valsa hippie", porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui, no princípio, estranhou um pouco, mas depois se amarrou na idéia. Escreva logo, dizendo o que você achou.

Um dia ele chegou tão diferente
do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito mais quente
do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia
como mania sua de falar

E nem deixou-a só num canto;
pra seu grande espanto
disse:
vamos nos amar...
Aí ela se recordou
do tempo em que saíam para namorar

E pôs seu vestido dourado
cheirando a guardado
de tanto esperar

Depois os dois deram-se os braços
como a gente antiga costumava dar

E cheios de ternura e graça
foram para a praça e começaram a bailar...
E logo toda a vizinhança
ao som daquela dança
foi e despertou

E veio para a praça escura,
e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos,
tantos gritos roucos c
omo não
se ouviam mais
Que o mundo compreendeu

E o dia amanheceu em paz.

DE CHICO BUARQUE PARA VINÍCIUS DE MORAES

Caro poeta,


Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o "Apesar de você". Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.

"Valsa hippie" é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo que há de hippie por aí. "Valsa hippie" ligado à filosofia hippie como você a ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que se segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippy. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou "xingou" mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar.

"Convidou-a pra rodar" eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e a tesão da trepada final. "Pra seu grande espanto", você tem razão, é melhor que "para seu espanto". Só que eu esqueci que ia por itens.

Vamos lá:
Apesar do Orestes (vestido de dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar vestidodecotado. E para ficar dourado, o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao "ousar" que ela não queria por causa do marido chato e quadrado.

Escuta, ô poeta, não leva a mal a minha impertinência, mas você precisava estar aqui para ver como a turma gosta, e o jeito dela gostar dessa valsa, assim à primeira vista. É por isso que estou puxando a sardinha mais para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.


Ainda baseado no argumento acima, prefiro o "abraçar" ao "bailar". Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.
A terceira é a que mais me preocupa. Você está certo quanto ao "o mundo" em vez de "a gente". Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último versos onde você diz "e cheios de ternura e graça" em vez de "e foram-se cheios de graça". Agora, estou pensando em retomar uma idéia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer "Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar". Só tem o probleminha da junção "em-estado", o "em-e" numa sílaba só. Que é o mesmo problema do "começaram-a". Mas você mesmo disse que o probleminha desaparece dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado "começaram a se abraçar" sem maiores danos.

Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente.


Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando.

Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, por que deu bolo com o "Apesar de você", tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a "Tonga", mas a "Banda" vendeu mais que o disco do Toquinho solando "Primavera".

Dê um abraço na Gesse, um beijo no Toquinho e peça à Silvana para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.

Um dia ele chegou tão diferente
do seu jeito de sempre chegar

Olhou-a dum jeito muito mais quente
do que sempre costumava olhar

E não maldisse a vida tanto
quanto era seu jeito de sempre falar

E nem deixou-a só num canto,
pra seu grande espanto
convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita
como há muito tempo não queria ousar

Com seu vestido decotado
cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
foram para a praça
e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança
que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
que toda a cidade enfim se iluminou

E foram tantos beijos loucos

Tantos gritos roucos
como não se ouvia mais

Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz."

A cumplicidade é evidente nessa parceria, a afinidade é visível, e eu queria ser assim com alguém... Depois dessa, eu me vou. O sábado está lindo, de sol, e eu vou à cata de companhia para a praia e o carangueijo. Quem se habilita????

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