30.6.07

Complexo de Gabriela

"Eu nasci assim,
eu cresci assim,
e sou mesmo assim,
vou ser sempre assim,
Gabrieeeeela...
Sempre Gabrieeeeela..."

Eu não tenho.

Sou uma eterna mutante.

Já fui loira do cabelo cacheado, já cortei tipo "joãozinho", já tive o cabelo abaixo da cintura (Deuzemais!)... hoje deixo do jeito que tá ficando bom. No momento está preto, pouco acima do ombro. Mas pra cortar, encrespar, frizar, trançar e mudar de cor... basta ter vontade.

Já abri a boca pra falar mal de rock, hoje adoro umas baladinhas e até algo mais pesado.

Já me chamei de mãe de cachorro, agora só tolero a criaturinha por amor ao meu filho (humano).

Já achei que casamento era pra sempre. Hoje vejo que nada é pra sempre.

Já achei que pirataria de CD e DVD fosse crime. Hoje... é melhor ficar calada.

Já fui totalmente controlada por um relógio, que me dizia o que fazer a cada 15 min. Hoje nem tenho mais relógio, uso o celular e mesmo assim, sem muita agonia.

Já tive complexo por ser magra demais, por ser gorda demais, e hoje não tenho nenhum.

Já achei que sabia muito, hoje tenho certeza de que sei muito pouco.

Já virei noites chorando por achar que podia dar jeito numa situação que se mostrou irremediável. Hoje sei que nada vale uma noite de sono perdida. E nem minhas lágrimas, que não sejam de felicidade ou de outra emoção boa.

Já fui amante da Canon... hoje me amarro na Sony.

Já deixei de usar calça comprida pra só usar saia e vestido... depois deixei de usar vestido e saia pra só usar calça... hoje uso o que eu quero, independente de ter uma costura no meio ou não.

Já fui ao Rio e fiquei do Congresso pro Hotel, não saí pra passear, com medo da violência (em 1994). Já fui ao Rio e andei sozinha à noite, me sentindo completamente segura e sem medo (em 2005 e 2006). Hoje não sei se teria coragem de ir ao Rio.

Já disse que não usaria branco porque engorda. No último reveillon, virei o ano de branco... e de vestido, descalça na areia em Salvador.

Já disse que não ia mais comprar roupa preta. Hoje sei que o preto e eu combinamos muito bem... me sinto perfeita no preto, básico ou escandaloso, tanto faz.

Já disse que odiava axé music (e continuo odiando). Mas já pulei um tanto ao som de Jammil - e adorei!

Já engoli muito sapo, e fiquei engasgada. Também já deixei passar muito mosquito na sopa. Hoje acho que nem carne de rã é pra mim, e tenho uma peneirinha pra pescar os mosquitos. Ao mesmo tempo, já estourei no primeiro sopro, e hoje sou como bambu, que sabe que tem que envergar pra não quebrar.

Já disse que odiava sarapatel... e hoje (literalmente) se tiver a opção... tô dentro!

Já fui extremamente inflexível e legalista. (É pra ser redundante mesmo). Hoje sou mais maleável e complacente. Inclusive comigo mesma.

Mas continuo acreditando em lealdade, fidelidade, honestidade, e principalmente em sinceridade. Continuo gostando de ver fotos e livros impressos em papel, mas já aceito que o digital chegou pra ficar. Continuo odiando rotina seja em que circunstância ou sentido for. Continuo amando chocolate e ignorando que tenha qualquer relação com espinhas, colesterol e aumento de peso. E continuo devota da coca-cola, obviamente.

Imagino que quem viva repetindo o mantra de Gabriela viva muito mal. Eu não saberia ser assim.

Reveillon no Espanhol, 2006/2007.
Foto By Outra Bel


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