1.6.07

Terminando de roubar livros


Estou sem palavras pra descrever a sensação de chegar ao final deste livro. Desde "O Caçador de Pipas", não tinha lido algo tão tocante. A II Guerra, o holocausto e todas as suas consequências são o pano de fundo para a história de uma menina alemã, analfabeta e assustada, que é levada para um lar adotivo e rouba o livro "Manual do coveiro", daquele que enterrara o seu irmão.

Sem descrever a guerra em si, Marcus Suzak coloca em detalhes mínimos, perceptíveis apenas para quem lê com atenção, a realidade da situação. Por exemplo: "Pessoas, judeus e nuvens, todos pararam. Ficaram observando."

Acho que me encantei também pelo fato dele mostrar o desejo ardente de aprender a ler e de não desistir, mesmo com toda a dificuldade de Liesel. E esse esforço tremendo era para conseguir ler o único livro disponível, "O manual do coveiro". Também bateu fundo a relação dela com o pai adotivo, que foi imediatamente assimilado como pai, ao sentar ao lado de sua cama todas as noites, para alcamá-la do pesadelo recorrente, da visão do irmãozinho morto. A coragem, a firmeza dessa menina de 9 anos, que brigava na rua, que roubava comida (e livros, é claro) e defendia a quem amava, é fantástica. Inspiradora.

A amizade com Max, um judeu que passou meses escondido no porão, sem nem ver a claridade do dia, deixa o livro com um peso muito maior. Não, não tem um final feliz, como nenhum livro autêncico sobre guerra pode ter. Mas vale à pena ser lido, quem tiver oportunidade, não deixe de fazê-lo. Mas leia com calma, sem querer chegar logo ao final. A Morte, que é a narradora é mostrada como tendo uma personalidade quase humana, com braços que se cansam, com desejos, com olhos que choram... e com expressões como esta:

"EIS UM PEQUENO FATO:
Você vai morrer.

(...)

REAÇÃO AO FATO SUPRACITADO:
Isso preocupa você?
Insisto - não tenha medo.
Sou tudo, menos injusta.


Onde estão os meus bons modos? Eu poderia apresentar-me apropriadamente, mas, na verdade, isso não é necessário. Você me conhecerá o suficiente, e bem depressa, dependendo de uma gama diversificada de variáveis. Basta dizer que em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você, com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma cor pousada em meu ombro. E levarei você embora gentilmente."

Eu nunca tive medo da morte. Talvez por conta da criação que recebi, talvez por conta da crença na alma imortal, talvez por ter chegado perto dela muitas vezes... (ou ela chegou perto de mim). Já tive, sim, preocupação em como ficariam meus filhos, enquanto pequenos, se eu me fosse. E por isso pedi a Deus que me preservasse a vida por mais um tempo, enquanto enfrentei situações das quais sair ilesa era uma probabilidade remota. Mas saí.

Hoje não tenho mais a preocupação com os filhos, que já não são tão pequenos, não me sinto no direito de pedir vida. Simplesmente confio nAquele que a tem nas mãos, como Criador e como sustentador, a quem estou entregue desde antes de nascer. Peço somente que a minha vida seja relevante onde eu estiver, e motivo de louvor a Ele.

Gosto de pensar que vivi muito e bem. Intensamente cada momento. Com todos os altos e baixos da montanha russa DDA, com minhas fragilidades físicas e emocionais, que pela Sua Graça se tornaram em força. Tenho muuuito o que contar, a cada dia momentos de experiência legítima com Deus, e não posso deixar de fazer isso.

O dia de ontem que começou tranquilo, trouxe uma turbulência no meio, mas terminou em paz. Rcebi o carinho, o cuidado e a proteção que precisava. E os últimos minutos foram de reflexão, com o término do livro. E posso dizer: Valeu demais!


Um comentário:

helentry disse...

Amei seu texto.Inspirador.Foi o melhor que li para motivação do livro A menina que roubava livros.
Vc diz pouco e diz muito, despertando a curiosidade.Faço parte de um grupo de leitura e nosso livro do mês é este. Por tudo que vc diz, fiquei mais motivada. Até me sinto mais preparada para o encontro com a Indesejada das gentes!Obrigada por escrever lindo!
Elô