19.7.07

Afinidade

Dia do amigo, dia da amizade, o que seja. Dia de ter a mail box cheia de famigerados ppts. Eu dispenso. Juro. Na boa. Amigos que só mandam mensagens encaminhadas, ganham um "filtro" no meu e-mail, e no dia que eles escreverem algo realmente importante, eu perco, porque já mandei direto pra lixeira. Mas nada disso é novidade... já se disse tanto sobre amizade, que podemos pensar que é suficiente.

Eu prefiro pensar em amigos com rosto. Cada palavra que escrevo sobre meus amigos aqui, mesmo genericamente, tem algum endereço certo. E geralmente eles se reconhecem. Porque meus amigos têm nome, endereço, e-mail, telefone e celular. Meus amigos são contactados, em horas de alegria ou de chateação. São encontrados e me encontram, sem muita agonia, ou deixam de ser amigos e passam a ser meramente colegas, conhecidos, whatever.

Tenho amigos que nunca vi, e que sabem mais de mim do que pessoas que convivem comigo no dia-a-dia. Muito já foi dito/escrito sobre a construção da amizade, mas um dos textos que rolam aí na net, que mais me tocaram (e isso há bastante tempo, quando eu ainda lia as apresentações) foi um, atribuído a Arthur da Távola, sobre afinidade. O texto inteiro está aqui, mas eu separei uns trechinhos pra quem não o quisesse ler inteiro.

"A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente.

Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto em que foi interrompido.
Afinidade é não haver tempo mediando a vida.

(...)

O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavra.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.

(...)

Afinidade é sentir com.
Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios.

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar.
Ou quando é falar, jamais explicar, apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.

(...)

A afinidade não precisa do amor. Pode existir com ou sem ele.
Independente dele. A quilômetros de distância.
Na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar.

(...)

A afinidade é singular, discreta e independente, porque não precisa do tempo para existir.
Vinte anos sem ver aquela pessoa com quem se estabeleceu o vínculo da afinidade!
No dia em que a vir de novo, você vai prosseguir a relação exatamente do ponto em que parou.
Afinidade é a adivinhação de essências não conhecidas nem pelas pessoas que as tem.

(...)

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças, é conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas, quantos das impossibilidades vividas.

Afinidade é retomar a relação do ponto em que parou, sem lamentar o tempo da separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas a oportunidade dada (tirada) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado."


Por isso e por mais alguma coisa que me foge agora (DDA enxaquecada não raciocina plenamente), meu tributo à AFINIDADE, que faz nascer e conserva a AMIZADE, que me deixa próxima de você que lê esse post, e que mesmo não concordando comigo é meu amigo.


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