21.11.07

Comemorar, recordar

[Hoje é dia de ir ao xops, e ver a decoração de natal. O coral da Clave de Sol vai cantar músicas natalinas na praça de alimentação. No repertório: Natal Branco, Bom Natal (quero ver você não chorar), Natal Brasileiro, Dona Nobis Pacem, João e Maria e Anos Dourados. As crianças também vão cantar, algumas músicas junto com a gente, outras separado. E vão tocar flauta, também. Serão 40 minutos de boa música, quem mora por aqui, aproveite. Começa às 19h.]

(Comecei a escrever este post no dia 19... e não deu tempo terminar, vai continuado agora, dia 21/11)

As músicas de natal convidam a comemorar, e consigo trazem o que recordar. Para mim, muita coisa classificada como não-tão-boa, o que deixa essa época explicitamente triste. Rubem Alves escreveu um texto muito próprio, (leia aqui) que entrelaça o comemorar com o recordar.

Eu li tanto sobre memória, pra minha mono... e muitas vezes me surpreendi com a riqueza e profundidade do tema. A memória é o que constrói a identidade de cada um, aquilo que nos torna únicos. Então, minha memória sou eu, e se eu esquecer o que vivi, sejam experiências boas ou ruins, vou deixar de ser eu, vou me perder.

Tem gente que diz que "perdoar é esquecer". Eu não concordo. Perdoar envolve a atitude que a gente vai ter diante daquilo (ou daquele) que nos magoou. Não podemos esquecer o que passamos. Primeiro, para nos manter inteiros. E depois, para aprender com as experiências vividas. Sei que já machuquei, e também fui muito machucada. Mas não admito que seja quem for venha me julgar, dizendo que eu "não perdoei" ou "estou cheia de mágoa". Mágoa dói. E O que me magoou, doeeeeu, doeu muito. Mas eu escolhi não deixar a mágoa sedimentar, e fazer a "troca"(clique para ouvir) que Guilherme Kerr sugere:

"A gente carrega por vezes, no peito
Histórias de brigas vividas lá atrás.
O tempo não cura feridas sem jeito,
E mágoa profunda, nem morte desfaz.
Às vezes, no peito a gente carrega
Os sons do passado, as vozes de então.
A dor de uma frase ferina nos cega,
Nos fisga e nos cerra, calando a canção.
São dores, são marcas, amores e mágoas,
São plantas que o sol nem deixou florescer.
São fontes poluídas, são rios sem água,
Lembranças amargas... quem dera esquecer!...

Mas toda essa dor foi sentida por Cristo,
E as nossas tristezas levou sobre si.
Marcado e ferido qual nunca foi visto,
Na cruz do suplício sofreu tudo ali.
Por isso Ele sabe das dores tão nossas,
Das marcas de fogo que o tempo deixou.
Conhece as lembranças doídas e as fossas,
Tomou nossas dores e as mágoas levou!
Em troca nos deu o perdão que nos cura.
O amor que alivia e a fé que refaz.
Moldou nossas vidas com nova figura,
Plantou-nos pra sempre no abrigo da paz!"

Mas voltando à digressão sobre lembrar e perdoar, o perdão liberado não me impede de não querer repetir uma experiência dolorosa, ou um convívio desgastante, ou permitir uma presença que incomoda. Penso assim: Fui machucada, perdoei, mas não vou ficar aqui "dando a cara a tapa", exposta pra ser machucada de novo, novamente, outra vez. Vou me proteger, e se essa proteção se traduzir num afastamento, que seja. Melhor do que permitir ser magoada novamente, e novamente e mais uma vez.

Interessante é que comecei a escrever sobre o natal e os sentimentos que ele me traz, e no dia seguinte ela escreveu sobre as lembranças que tem dessa data (obviamente sem ter qualquer conhecimento do que estava aqui nos meus rascunhos) e chamou, apropriadamente de "fantasma do natal passado". Eu gostei de ler, como [quase] sempre gosto de ler o que ela escreve. Mas gostei mais ainda porque vi que consegui fazer algo que desejei há muito tempo: criar uma tradição de natal em casa. E deixar boas lembranças disso.

Na minha infância não tinha essa coisa de árvore e presentes. Nunca acreditei em papai noel. Mas eu achava que crianças têm o direito de sonhar, fantasiar, e apesar de nunca falar em papai noel, sempre fiz do natal uma data especial para meus meninos. Uma oportunidade de relembrar mais fortemente o amor de Deus em mandar Jesus - o maior presente que o mundo poderia receber.

Quando Line falou da árvore de 3 metros, me lembrei de tanta coisa... era mesmo uma aventura armar a árvore, e enfeitá-la a cada ano de maneira diferente. Já foram saquinhos de sequilhos com fitas verdes e vermelhas, sonhos de valsa, bolas dos mais variados tipos, enfeites de pano, de madeira, de notas musicais... e, é claro, com muitas luzes coloridas. Eu curtia muito enfeitar a casa pro natal.

Hoje sinto falta, mas como tenho passado o natal sozinha há 2 anos, procuro esquecer que decoração de natal existe. Aliás, procuro esquecer que natal existe. Para celebrar o nascimento de Cristo eu não preciso de uma data especial. Todo dia é dia de lembrar do Amor, Sublime Amor.

Espero que um dia o natal deixe de ser uma data triste... que outros acontecimentos sobrepujem os tristes, e eu consiga deixar os sons tão gostosos me trazerem de novo a alegria que um dia já senti.


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