20.12.07

O Rei Menino

O estandarte do Rei não é de púrpura e brocado,
é um lírio flutuante sobre o caos,

nde ambições se digladiam
e ódios se estraçalham.
O Rei vem cumprir o anúncio de Isaías:

vem para evangelizar os brutos,
c
onsolar os que choram,

exaltar os cobertos de cinza,

desentranhar o sentido exato da paz,

magnificar o lume da justiça.


Entre Belém de Judá e Wall Street,

no torvelinho de negações e equívocos,

a vergasta de luz deixa atônitos os fariseus.
Cegos distinguem o sinal,

surdos captam a melodia de anjos-cantadores,

mudos descobrem o movimento da palavra.

O Rei sem manto e sem jóias,

nu como folha de erva,

distribui riquezas não tituladas.

Oferece a transparência
da alma liberta de cuidados vis.
As coisas já não são as antigas coisas
de perecível beleza
e o homem não é mais cativo de sua sombra.

A limitação dos seres foi vencida

Por uma alegria não censurada,

graça de reinventar a Terra,

antes castigo e exílio,

hoje flecha em direção infinita.


O Rei, criança,
permanecerá criança
mesmo sob vestes trágicas

porque assim o vimos e queremos,
assim nos curvamos diante do seu berço
tecido de palha, vento e ar.
Seu sangrento destino prefixado
não dilui
a luminosidade desta cena.
O menino, apenas um menino,

acima das filosofias, da cibernética e dos dólares,
sustenta o peso do mundo na palma ingênua das mãos.

de Carlos Drummond de Andrade,
mensagem de Natal, trazida até mim pelas mãos de Marta. Obrigada, prima!

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