17.6.08

As três experiências - Clarice Lispector

"Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. "O amar os outros" é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete [quatro] anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro [texto] meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.

Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão
[o menino está] aqui, ao meu lado. [A menina já voou.] Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o vôo necessário, e eu ficarei sozinha: É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos.

Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

Sempre me restará amar.

Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera."


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Incrível como certos escritos alheios cabem em mim, como se eu mesma os tivesse concebido. Este, de Clarice Lispector, é um deles. Não sei como cheguei até ele, se recebi por e-mail, ou se foi pulando de link em link... o fato é que à exceção de umas poucas palavras, ela disse o que eu poderia ter dito, se tivesse a eloquência e a inspiração necessárias para tanto. Mas me recolho à posição de leitora que, como disse Drummond, é parte da poesia que o poeta escreve ["a poesia é metade de quem escreve e metade de quem lê"].

Olho para meus filhos e meus escritos... e
tantas vezes penso: como fui capaz (no sentido de "competente") de gerá-los? Será que realmente saíram de mim? Mas como vivi tanto a gravidez das crianças como a prenhez dos textos, SEI que são meus. Mas não me pertencem. Quando os entrego ao mundo, passam a ter vida própria, e, apesar do meu direcionamento, tomam seus próprios rumos.
(Ontem joguei meu nome no Pai Google e encontrei - surpresa - entre outras coisas, um texto que escrevi há cinco anos atrás, e enviei para um site de literatura... nem me lembrava. Mas está lá, seguiu seu caminho.)

Mas como Clarice, vejo que o que me restará para sempre é amar. E como é bom saber que esta é uma opção que não se esgota, que quanto mais amo, mais tenho amor pra dar (e receber), que as "segundas chances" existem (e as terceiras, quartas, quintas..) e que eu sou esperta o suficiente para aproveitá-las.




Literalmente, escrevendo com ela!
Recife, janeiro, 2007



"E eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal - posto que é chama -

Mas que seja infinito enquanto dure."

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