16.8.08

Copiando descaradamente...

Porque depois de ler um monte de coisa sobre a morte de Caymmi, nada me tocou tanto quanto este texto do Rafael Cury.

Eu soube da morte de Caymmi num repente, enquanto estava longe da TV, da internet e perto do mar que ele tanto cantou. Fiquei meio sem graça, sem querer pensar no assunto, porque, afinal de contas, o sentimento de perda não é nada gostoso. Passei boa parte do dia tentando pensar em como escrever sobre o homem que tão lindamente cantou minha terra, sua gente, suas praias... que se confunde com o próprio mar e que mesmo morando no Rio era a própria imagem da Bahia.

E aí, abri o Google Reader para lá encontrar essa pérola de sensibilidade, que traduziu o sentimento que está no meu coração, com as suas palavras:


"Hoje o mundo ficou um pouco mais feio. Porque não tem mais Caymmi.

O que que o baiano tem? O poder de encantar com poesia simples, música doce, samba simpático. Um olhar terno de tio, seguido de sorriso de avô, a preguicinha assim que todos queríamos ter vez por outra.


Custo a pensar que ele morreu. Talvez foi para Maracangalha. Ou a bordo de uma jangada está navegando por um mar de ternura, pescando nossos sentimentos e cantarolando com aquele vozeirão de timbre grosso, que consegue ser forte e ao mesmo tempo me
igo.

Disse Dorival em uma das canções que o pescador tem dois amor. Ele mesmo possuía muitos. Não amor de mulher, que foi um só até seus 93 anos. Mas o amor de quem sabe ver o oceano beijando a areia, observar quando Marina Morena se pintou, que é doce morrer no mar.


Caymmi não compôs muitas músicas. Não precisou. Tudo nele era enxuto, preciso, incrivelmente curto. Nada de letras enormes, nada de harmonias complexas. Sua obra era de definições comuns, porém incrivelmente líricas. Já sinto saudade dele.


Hoje o mundo ficou um pouco mais feio. E eu chorei um pouquinho. Eram lágrimas salgadas com gosto de água de Itapuã, com cheiro de pelourinho e com uma incrível vontade de velejar novamente ao lado de Dorival Caymmi."



Pra terminar, uma das músicas menos conhecidas de Caymmi, mas que é das minhas preferidas.

"João Valentão é brigão,
Pra dar bofetão
Não presta atenção e nem pensa na vida.
A todos João intimida,
Faz coisas que até Deus duvida.
Mas tem seu momento na vida...
É quando o sol vai quebrando
Lá pro fim do mundo pra noite chegar,
É quando se ouve mais forte
O ronco das ondas na beira do mar.
É quando o cansaço da lida da vida
Obriga João se sentar,
É quando a morena se encolhe
Se chega pro lado querendo agradar...
Se a noite é de lua,
A vontade é contar mentira,
É se espreguiçar,
Deitar na areia da praia
Que acaba onde a vista não pode alcançar...
E assim adormece esse homem
Que nunca precisa dormir pra sonhar,
Porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há!"

(Quem quer ver fotos de Ilhéus que ilustram esta canção, é só ir aqui.)

Pra completar, o Coral da Escola de Música Villa Lobos, no Rio, cantando um arranjo de João Valentão:

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