15.11.09

Bem devagar (ou As voltas que a vida dá)

“Sem correr, bem devagar, a felicidade voltou pra mim.

Sem perceber, sem suspeitar, o meu coração deixou você surgir.

E como o despertar depois de um sonho mau

Eu vi o amor sorrindo em seu olhar.

E a beleza da ternura de sentir você

Chegou sem correr, bem devagar.

Amor velho que se acaba vai correndo pr’outro ninho

Amor novo que começa vem sem pressa, vem mansinho…

Sem correr, bem devagar, a felicidade voltou pra mim.

Sem perceber, sem suspeitar, o meu coração viu você surgir.

E como o despertar depois de um sonho mau

Eu vi o amor sorrindo em seu olhar.

E a beleza da ternura de sentir você

Chegou sem correr, bem devagar.”

 

“Eu amei, eu amei, ai de mim, muito mais do que devia amar.

E chorei, ao sentir que ira sofrer e me desesperar.

Foi então que na minha infinita tristeza aconteceu você!

Encontrei em você a razão de viver e de amar em paz, e não sofrer mais.”

 

Foi assim. Bem devagar.

A história da felicidade que vivo hoje só pode ser contada começando pela história de uma tristeza. E misturada com a história do meu blog. Porque eu comecei a escrever no blog com duas intenções: primeiro, desabafar, colocar pra fora o que me enchia o coração; e depois, lá no fundo, eu queria que o ex-marido lesse, já que ele não me ouvia. Bem, a primeira intenção foi plenamente atingida. Já a segunda… não funcionou como eu esperava. E depois de ver o casamento de quase vinte anos virar pó e se transformar em cinzas levadas pelo vento,  senti o que sentiria qualquer mulher que aguentou uma traição,  muito sofrimento, mentiras e um coração muito machucado.

O “tempo de luto” pela morte do casamento foi vivido antes mesmo da separação formal, e quando os papéis foram assinados, chegou o “tempo de festa”, ou ao menos o tempo de não chorar mais. Eu oscilava entre o desejo de um novo amor e o medo de me envolver emocionalmente com outra pessoa. Ficava com medo de me jogar num outro relacionamento, e ao mesmo tempo, tinha medo de, como Carolina, ficar guandando a dor nos olhos tristes, e não ver nem o tempo passar na janela. Medo. Essa palavra, tão presente, simplesmente desapareceu quando começou a segunda parte da história.

Nós já nos conhecíamos há mais de dez anos. Ele cantava no coral em que eu era a regente. Ná época, ele era casado [com a minha colega de trabalho] e eu também. Nem passava pela cabeça de nenhum dos dois que os casamentos acabariam, e muito menos que um dia estaríamos juntos. Mas havia, sim, uma afinidade entre nós. De minha parte, posso dizer que ele era uma pessoa que eu admirava, gostava “de graça”, educado, gentil, um gentleman, no sentido da palavra.

coral

Cau no Coral, e a coreografia de “Pombinha voou, voou”

Um belo dia, (não tão belo, na verdade) ele disse que iria sair do coral, pois estava viajando muito, faltando aos ensaios e como a regente era exigente demais, ficava cobrando a presença, ele achou melhor deixar de vez. A partir daí nosso contato foi rareando, quando nos encontrávamos por acaso, pela rua (cidade pequena, sabe como é?) eu perguntava quando ele ia voltar ao coral, dizia que estava fazendo falta, essas coisas. Ele respondia que não dava mais, que estava muito atarefado, e ficava só nisso.

Até que em junho de 2007, no aniversário de Ilhéus, eu escrevi um post sobre a história da cidade, que foi citado e linkado num blog de notícias aqui da região, o Pimenta na Muqueca. [O Pimenta teve problemas com o servidor, e perdeu os arquivos, então não posso linkar o post específico. O Pimenta-cupido me mandou o link, veja aqui!]  Ele me mandou um e-mail, falando do link elogioso no Pimenta, que normalmente só “malhava”, e inclusive, nos comentários, nesse dito cujo post, foram feitos alguns elogios a mim, e no e-mail ele falou que já tinha avisado ao “comentarista” que eu era casada. Eu respondi: “Bobo! Estou descasada há mais de um ano…”

JURO que foi sem qualquer intenção, mas ele entendeu que eu estava acenando com uma possibilidade… e que bom que ele entendeu assim! Começou a ler meu blog diariamente, e não comentava na caixinha do haloscan, mas mandava e-mails, que eu respondia educadamente, sem nem perceber que ele estava cultivando um interesse “a mais”.

Uma vez eu escrevi sobre o sonho que tinha [ainda tenho] de ter uma livraria /  espaço cultural   e ele mandou e-mail dizendo que tinha o mesmo sonho, quem sabe não seríamos sócios? Bom, aí meu interesse por ele já era palpável, mas pensando na livraria. E quando nos víamos, eu cobrava: “Quando vamos conversar sobre a NOSSA livraria?” E ele dizia que precisávamos marcar um almoço ou jantar pra conversarmos… e morria aí.

Bem, quase um ano depois desse nosso “reencontro” pelo blog, e dessa troca de e-mails mais constante, eu estava numa carência emocional bem grande, e escrevi um post usando um poema de Luiz Bello, “Os amores que quero… e os que não quero”:

"Não quero mais saber se vais cumprir

Ou renegar,
As promessas que leio em teu olhar.
Também não quero mais compreender
Ou desvendar,
Os segredos que moram em teus silêncios.
Sei que há verbos de amor que conjugamos
Ou calamos
E bravuras de amor que não ousamos.

Mas sei também que o amor pede firmeza
E clareza
Em todos os tempos e modos que conjuga.

Não quero mais o amor de compromisso
Tão omisso
Nas liberdades que sempre anuncia.
Também não quero o amor instituído
Do marido,
Vítima inerte da monogamia.

Eu quero o amor sinfônico dos grilos,
Que mobilizam orquestras estridentes
Para encantar e amar suas nubentes.
Quero o amor triunfal dos pirilampos

Que iluminam o seu mundo e suas vidas,
Para atrair as suas preferidas.
Eu quero o amor trivial dos namorados
Liberto ou não, secreto, proibido,
Talvez proscrito ou amaldiçoado
Pelas forças que regem, ou que oprimem
As travessuras líricas do homem.

Eu quero amar, como a palavra indica,
Com a mais completa naturalidade.
Eu quero, enfim, viver, inteiramente,
Aquilo que o amor significa. "

 

E na caixinha de comentários, ele colocou o seguinte:

“Anabel:
O próprio Luiz Bello escreveu outro poema que serve como resposta a este que você tanto gostou.
Veja a seguir:

Confissão
         (A Leila Miccolis)
Ansioso e submisso,
Feito as mulheres,
Molhado e umedecido
Depois de ensaboado
E ainda perfumado,
Se assim preferes,
Tudo como gostas,
Tudo como queres,
Do teu ou do meu jeito,
No teu ou no meu leito,
Quero ser teu homem,
Quando quiseres.”

E assinou “Cau”. Fiquei sem ter nem idéia  de quem era “Cau”… até que recebi via e-mail o link de onde ele havia encontrado o poema-resposta. Hummm… “Mãe, ele tá te dando o maior mole!”, minha filha disse, quando leu. E confesso que eu gostei.

As coisas não foram de repente, foram, como falei no início, “bem devagar”. Talvez até mais devagar do que eu quisesse, e precisei mesmo dar “um empurrãozinho”, saindo do espaço digital e mandando um cartão de papel (guardado até hoje junto às nossas preciosidades) pra que o nosso jantar programado finalmente acontecesse. Só que nesse jantar, num restaurante chique (e eu de jeans, camiseta e rasteirinha) depois de muita conversa, as coisas que iam num ritmo bem devagar, desabrocharam, e como ele disse na hora, “era inevitável”.

E nossa relação ficou “séria” logo de cara. Afinal de contas, nós dois somos “pessoas sérias”, apesar de muito bem humoradas! O pedido de casamento aconteceu também no blog. JURO que não esperava que fosse assim, pois ele nem comentava os posts… só comentava “ao vivo” ou via e-mail… mas, enfim, a prova está aqui, e a resposta aqui.

Nos descobrimos semelhantes em muitas coisas e complementares nas diferenças. Mudamos em algumas coisas, e continuamos dando de testa em outras. Eu fiquei mais caseira e ele aprendeu a sair mais e a receber amigos em casa. Estamos morando juntos desde agosto, eu, ele e meu filhote. O casamento “no papel” deve acontecer em dezembro, e a lua-de-mel em Paris fica pra Maio de 2010, considerando um bocado de variantes, inclusive o clima na Europa.

Bel e Cau

Os ajustes dos primeiros seis meses de casados, segundo a Jady, são os mais complicados, e não vou posar de Cinderela que encontrou o Príncipe Encantado. Também não somos Shrek e Fiona. Somos Bel e Cau, pessoas normais  lutando para construir nossa felicidade e provando por A + B que as experiências anteriores, ainda que duras e cruéis, servem para nos fazer valorizar o presente e aprender com os erros – nossos e alheios.

Às vezes nos pegamos pensando no quanto nossa vida mudou, em tão pouco tempo. E repito aqui: E é uma conexão tão perfeita, que fica difícil imaginar que houve um tempo em que não éramos "nós".

Hoje escrevo nossa história  a pedido da Elaine enquanto estamos separados há uma semana – e parece que é um mês. Vim acompanhar minha mãe numa cirurgia delicada em Salvador, e ele ficou em Ilhéus. Mas vai fazer a revisão e aprovar (ou não) antes que eu envie a ela. Tomara que ele “libere”… afinal, a história não é só minha, né?

 

PS- Ele liberou depois de muita insistência, e acabei perdendo o posto de “primeira história” a ser publicada nesta nova seção do blog. Fazer o que? Aqui é tudo “bem devagar”...

PS²  - A Elaine publicou ontem, na seção “Um pouco de amor” que é publicada a cada sábado no seu blog, e achei injusto que quem me lê aqui não lesse também!

PS3 – O Pimenta me mandou um outro link, com uma tietagem explícita dele: http://pimentanamuqueca.blogspot.com/2007/06/vale-pena-ler.html 

 

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