30.11.09

Nesta data querida – Silmara Franco

“Já que você perguntou, eu conto. Este gorro aqui tem vinte e três anos. É do tempo em que eu morava no casarão. A Dona Jandira tinha entrado na sala e desabado os três sacos de lixo sobre o tapete. Mas não eram sacos com lixo. Quer dizer, o que tinha dentro era o lixo de alguém. Mas não era para nós. Aquilo era o nosso guarda-roupa. Ninguém ali ganhava roupa nova. Nunca. Sempre usada.

Quando Dona Jandira chegava com os sacos, as crianças iam descendo a escada curiosas, ressabiadas, uns sentavam nos degraus e ficavam espiando pelas grades. O Francisco mesmo, era um que nunca descia. Ficava encarapitado lá em cima, com o livro de eletricidade que ele adorava no colo. O livro veio num dos sacos uma vez, ele pegou e não largou mais. Dona Jandira já estava acostumada. Depois ela separava o que servia nele. Nesses dias sempre tinha um alvoroço no ar. Eu ficava alegre de ver os sacos, mas não entendia porque quase nunca tinha alguma coisa para mim.

Dona Jandira usava os cabelos presos atrás, de um jeito que os olhos dela ficavam até meio puxados. Ela era a presidente do nosso casarão. Cuidava de nós, criava as regras e as mudava, quando ninguém obedecia. Fazia nossa comida, lavava nossa roupa, dava bronca quando alguém tirava nota ruim, apartava briga. Dava bom dia e boa noite com beijo, disso eu não gostava muito. Ela ria o dia todo, achava tudo engraçado. Acho que era o jeito que ela encontrava para não ficar doida. Éramos nove, cada um com um motivo para estar ali. Com ela, dez. Mais a Candinha que vinha ajudar, onze. Padre Tomás não contava, ele não vinha muito. No começo eu achava que ele e a Dona Jandira eram namorados. Nunca tinha visto padre que não usava batina. Um dia perguntei e ela riu, como sempre. E disse que ele era casado com Deus. Achei estranho, Deus não era mulher.

Eu gostava de sentar atrás das suas pernas quando ela se deitava no sofá para assistir a novela. As pernas eram uma rua comprida, eu colocava minhas bonecas em cima delas e fazia de conta que estavam todas indo para uma festa. A bunda era o casarão. Dona Jandira tinha um bundão.

As crianças foram abrindo os sacos e tirando tudo de dentro, Dona Jandira tentando organizar, mas a molecada não deixava. Foi vestido pra um lado, blusa pro outro, aquele monte de meias espalhadas. A Sandrinha vestiu uma calça ao contrário, ficou entalada, perdeu o equilíbrio e bateu a cabeça na parede. Eu achei que ela tinha morrido.

Dona Jandira sabia que era meu aniversário, ia até ter bolo no sábado. Eu percebi que ela tentava encontrar no saco alguma coisa bem bonita para mim. Mas daquela vez tinha vindo mais coisa de criança pequena, e mais coisa de menino. Eu era a mais velha por lá. Tinha doze anos, e usava tamanho dez. Mesmo assim, nada serviu. Tinha uma camiseta azul-céu linda, com a letra F bordada do lado esquerdo. Experimentei, mas ficou curta. Puxei na frente, para baixo, mas Dona Jandira balançou a cabeça. Foi pro Francisco. E ele nem gostou dela depois.

No terceiro lote eu já tinha perdido as esperanças, quando ela tirou, toda animada, um gorro de lã vermelho. Quer coisa mais simples que gorro? Serve em qualquer pessoa que tenha cabeça. Ficou para mim. Naquela noite a Dona Jandira ficou sentada ao meu lado na cama. Ela ia fazendo cafuné nos meus cabelos enquanto cantava baixinho, bem devagar e quase sussurrando… Parabéns pra você… nesta data querida… E eu fingi que dormia, para ela poder chorar sossegada.”

Como planejado, estou publicando os quatro melhores contos recebidos. Este foi o segundo conto selecionado no Concurso de Contos e Microcontos dos 4 anos do Deixoler. A Silmara publicou no blog dela logo após enviar para o concurso, então alguns de vocês já podem ter lido lá, mas quem não leu… delicia-se por aqui mesmo.

E amanhã tem mais.

(Estou às voltas com um artigo para entregar e preciso terminá-lo com urgência. Então… fica pra depois os comentários sobre Bastardos Inglórios, filme muuuuuuito bom, que assisti com o filhote ontem.)

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