26.12.09

Confiando no conteúdo

Marido me mandou, via e-mail, o texto de um blog, com a pergunta: “O que você acha?”. Respondi. Então, contrariando o espírito natalino que se abate desce sobre os blogueiros nesta noite feliz no dia de hoje, [Este post foi escrito no dia 24 de dezembro] vai um post-cabeça, falando sobre a disputa entre blogs e a Academia. Ou melhor, falando do desprezo que a Academia tem pelos blogs. O texto a que me refiro, é de autoria de Vitor Plamplona, e vai em sua totalidade copiado abaixo, para que quem me leia tenha a noção exata do que estou falando.

“Seriedade, Confiabilidade e Citações

Uma série de posts meus no Twitter causou certa polêmica:

" Quando escrever um artigo, ou algo sério, NUNCA cite um blog. Se a wikipedia já é vista como não confiável, imagine então um blog . Blogs, Wikipedia, Centrais de Notícia e muitos livros, apenas re-escrevem conteúdo em linguagem informal. Citá-los só trará efeitos e interpretações negativas ao seu texto. Conceito de um blog é lamentavelmente um diário. Escreve-se o que se pensa, sem qualquer compromisso com a verdade. Logo, por mais que a informação lá seja verdadeira e precisamente descrita, sempre haverá dúvidas por ser um blog. "

Não quero aqui difamar os blogueiros ou argumentar contra esse saudável hobby intelectual. Muitos de meus colegas expõem, em blogs, suas pesquisas (acadêmicas), experiências pessoais e relatam achados de maneira superior a muitos livros e agências de notícias. No entanto, mesmo blogs de cientistas importantes não devem ser citados em um texto sério.

O conteúdo de um blog nunca será original / inovador da mesma forma que o conteúdo de uma notícia nunca será. Os dois tipos de inovadores, tecnológicos e científicos, não publicam suas contribuições em blogs. Eles as publicam em uma revista de maior valor ou impacto, onde sempre há uma equipe para garantir a precisão, confiabilidade e a transparência da informação. No caso de uma inovação tecnológica, ainda há mais problemas, pois esse tipo de publicação, em sua versão inicial, dificilmente retrata de maneira isenta, precisa e confiável os trabalhos anteriories, da concorrência, e a exata contribuição da inovação a ser descrita. Portanto, um processo de revisão independente é imprescindível.

O papel de uma citação é dar crédito ao autor da idéia original que se está parafraseando ou re-escrevendo. Dar o devido crédito é sempre um trabalho delicado, que merece muita atenção. Dar crédito a pessoa errada, a pessoa que simplesmente re-escreveu as idéias originais de alguém, dar mais crédito do que o necessário ou minimizar a contruição da pessoa citada, é um erro grave e normalmente desqualifica o seu texto, não importa onde você esteja publicando.

Logo, citar um post de blog, que normalmente é escrito egocentricamente e informalmente, onde não se sabe qual é a exata contribuição daquele texto, onde não houve uma revisão adequada, e onde o autor dificilmente admite seus equívocos, é um grande erro. Não se trata apenas do erro de citar algo informal, mas sim da interpretação deste erro por parte de seu leitor.

Uma citação incorreta ou imprecisa normalmente desqualifica o autor do texto. Se o autor conhecesse a área em que escreve, citaria corretamente, dado que fazer uma citação é a parte mais fácil de qualquer trabalho. Se o autor erra a citação, significa que o autor não conhece tão bem a área, logo o seu texto e suas conclusões podem estar erradas e deverão ser, no mínimo, fortemente questionadas pelo leitor.

Portanto, nada de citar blogs em qualquer trabalho sério.

RESPONDENDO:

Concordo em parte. Há que se notar o assunto do "trabalho sério". Existem assuntos que AINDA não chegaram à Academia, mas já estão nos blogs. E aí? Não poderemos encarar cientificamente algo, apenas porque é novo e está sendo veiculado num suporte que não temos domínio? (Eu iria colocar "domínio pleno", mas nem se cogita chegar à plenitude, é só "domínio" mesmo) A minha orientadora disse, com todas as letras, que "blog é coisa de mulherzinha e de quem não tem o que fazer." Existe exemplo pior? Ela (e outros tantos Doutores) não fazem idéia do que se publica num blog.

"O conteúdo de um blog nunca será original / inovador da mesma forma que o conteúdo de uma notícia nunca será." Não sei qual bobagem tem mais peso, se a primeira assertiva ou a segunda, mas me aterei à segunda, no que diz respeito à definição de NOTÍCIA, vindas da Teoria do Jornalismo (relembrada dos tempos de graduação em Comunicação Social):

A notícia é um acontecimento que INTERESSA SER NOTICIADO por conta de suas características: Veracidade, objetividade, clareza, brevidade, generalidade, atualidade, novidade, interesse humano, proximidade, relevância, consequencia, desenlace e serviço. Bem entendido que isso é o IDEAL, mas existe também a parte mercadológica da notícia, que não é o mérito desta questão.

Assim, a notícia é, sim, algo original, ou então não será NOTÍCIA.

Citando DATOÉ (2004):

Em 1922 o ex-jornalista e sociólogo norte-americano Robert Park fez um trabalho sobre a natureza das notícias. Ele considerava que as notícias “têm como incumbência a construção da coesão social. Elas permitem às pessoas ficarem sabendo o que acontece em volta delas para tomarem atitudes e, através de suas ações, construir uma identidade comum”. A função da notícia é “orientar o homem e a sociedade num mundo real. Na medida em que o consegue, tende a preservar a sanidade do indivíduo e a permanência da sociedade” (Park, 1972, p.183).

Mas vamos para frente.

Nem sempre a Academia se achega à internet, (haja vista a pesquisa feita por mim quanto ao uso da grande rede entre os meus amigos - a Academia se revelou absurdamente ignorante. Só usa a internet para ler revistas eletrônicas). Ao passo disso, conheço doutores (PhD) [Alex Primo, Lola Aronovich, entre outros ] que têm blogs e lá publicam seus escritos, pessoais e acadêmicos, "ignorando" (no sentido de não esperar por elas, pelas suas revisões intermináveis e subjetivas, para não dizer não precisamente confiáveis, já que, em muitos casos, basta ter um determinado nome na autoria, o trabalho é aceito) as "publicações sérias" para tanto. A chamada "revisão independente" como cita o autor do texto em questão, existe, sim, mas existe pro-forma. Quem garante que a seleção é feita realmente no modelo "blinded revew"??? Além disso, as citações de internet são previstas nas normas da ABNT.

Eu estou - no exato momento - fazendo fichamento de um ROMANCE de José Saramago, considerado e aclamado escritor português - para utilizar em minha dissertação. Ele faz reflexões sobre a imagem, de uma maneira precisa e belíssima. Mas é num ROMANCE, e eu poderei citá-lo, porque é LIVRO IMPRESSO. Mas Saramago também tem um blog, e eu o citei num artigo para uma das disciplinas do Mestrado, quando ele falava sobre memória e identidade (veja abaixo). E aí?

A relação entre memória e identidade não é nova. “Para Proust, como para alguns filósofos, a memória é a garantia de nossa própria identidade, o modo de podermos dizer ‘eu’ reunindo tudo o que fomos e fizemos a tudo que somos e fazemos” (CHAUI, 2005, p.138). Saramago (2009) reafirma com intensidade o sentimento dessa ligação: “Somos a memória que temos, sem memória não saberíamos quem somos”, e ao comentar a notícia dada por revistas científicas como a Nature e Learn Mem de que uma molécula denominada ZIP, recentemente descoberta poderá apagar todas as memórias, boas ou más, “Sou um bicho da terra como qualquer ser humano, com qualidades e defeitos, com erros e acertos, deixem-me ficar assim. Com a minha memória, essa que eu sou. Não quero esquecer nada” (SARAMAGO, 2009)

Outra coisa: Pamplona (2009) diz "Se o autor conhecesse a área em que escreve". Essa pra mim é a grande questão. Se o autor é cobra, fera, o bambambam no assunto, ele pode escrever num livro, numa revista científica, numa revista convencional, num jornal impresso ou até no jornalzinho do bairro, que será digno de citação. E por que não num blog? Eu o citarei, e estarei pronta para defender minha atitude diante de qualquer banca. Já o nosso amigo… E eu pergunto [delicadamente, é claro]: Ele conhece a área que escreve? Porque conhecer de metodologia é uma coisa. Conhecer da blogosfera, que se modifica e se atualiza a cada segundo, é outra coisa, e é exatamente o que lhe daria o direito de dizer que um blog é

"escrito egocentricamente e informalmente, onde não se sabe qual é a exata contribuição daquele texto, onde não houve uma revisão adequada, e onde o autor dificilmente admite seus equívocos" (PAMPLONA, 2009).

Então, caso ele reconheça que sua afirmação citada acima não é um axioma, e carece de estudos – inclusive científicos – ótimo. Terá minha admiração por aceitar sua capacidade de errar. Do contrário… vou encarar seu blog apenas como um “saudável hobby intelectual”, do qual me reservarei o direito de não ler – o hábito não será tão saudável assim.

A propósito, eu encaro os blogs como algo mais que um mero “saudável hobby intelectual”, embora para alguns também o seja, ou somente o seja.

REFERÊNCIAS:

DATOÉ, Andrelise. Teorias da Notícia: uma tentativa de construção, II Encontro Nacional de História da Mídia da Rede ALCAR, Florianópolis, 2004, disponível em <http://www.redealcar.jornalismo.ufsc.br/cd/grupos%20de%20trabalho%20de%20historia%20da%20midia/historia%20dos%20jornalismo/trabalhos_selecionados/andrelise_daltoe.doc> /acesso em 23 dez 2009.

PAMPLONA, Vitor. Seriedade, confiabilidade e citações. Disponível em <http://vitorpamplona.com/lastChanges.pr?page=8>. Acesso em 23 dez 2009

SARAMAGO, José. Recordações. In O Caderno de Saramago. Disponível em: <http://caderno. josesaramago.org/2009/04/28/recordacoes/>. Acesso em 02 abr 2009

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