14.12.09

Vi por aí #13 – Crepúsculo dos casais – Fabrício Carpinejar

Antes que me trucidem, me execrem e me internem [cada um por seus motivos], deixem-me explicar:

1. Não me interessei pela série Twilight de Stephen Meyer. Prezo pela máxima “nunca diga nunca”, mas não li e imagino que não lerei, assim como não vi os filmes, e imagino que não verei, embora seja mais fácil, neste caso específico, assistir do que ler, confesso.. Mas não recrimino quem leu, gostou, adorou e ficou viciada.

2. Não gosto – e sei que não é legal para quem supervaloriza as buscas do Pai Google – de copiar posts inteiros do blog de alguém, ainda que dê os créditos e teça meus próprios comentários. Mas é que o site do Fabrício Carpinejar não tem links específicos para determinado post, e este já não está na primeira página, por isso segue ranscrito abaixo. Além disso, já foi publicado no jornal paranaense Gazeta do Povo.

3. Achei o texto tão interessante, que gostaria MUITO que vocês lessem, e como verifico pelo espião que me ama, o Mr. Statcounter, quase ninguém segue os links que eu deixo para textos que são comentados por mim.

 

Então, devidamente justificada, vamos ao que interessa:

 

CREPÚSCULO DOS CASAIS
Arte de Caetano Cury
Fabrício Carpinejar

A namorada de meu irmão começou a elogiar o vampiro Edward, do filme Crepúsculo.
“Aquela palidez, aqueles traços selvagens, o corpo perfeito.”
Enquanto ela discorria metaforicamente, tudo bem, até a hora em que entrou o corpo perfeito. Foi um banho de realidade. Ele a via se esfregando no box e dedicando o pescoço ao canastrão. Não importava se a menina ad­­­mirava o personagem ou o ator Robert Pattinson. Ambos se tornaram um inimigo declarado dele e de seu time de futebol de terça-feira.
Homem somente arde de ciúme de um ator quando venerada sua força física e muscular. Pode falar das ideias, da inteligência, do romantismo, do caráter, nada incomodará. Erudição e sensibilidade são alcançáveis mesmo com uma barriguinha de cerveja. O trauma é acabar com a barriguinha de cerveja.
Namorada, quando comenta o tórax, o tronco, as pernas de um ator, logo completará a provocação “eu faria qualquer coisa com ele”.
– Qualquer coisa?, o namorado retruca.
– Sim, qualquer coisa. Sua sorte é que ele não mora aqui.
Ainda solta um risinho, que aumenta a malícia da frase e o conteúdo misterioso e encorajador da oferta.
A noite estará estragada com o inofensivo diálogo.
Em primeiro lugar, o ciumento vai concluir que não faz qualquer coisa por ele, que ela guarda segredos e posições intocadas do Kama Sutra. Já a imagina cumprindo um spacatto na mesa de jantar.
O homem tem muito mais medo de ser corneado pela fantasia feminina do que pela parada de ônibus.
É desvalia funcional. Se quer que o ex cometa suicídio, espalhe a fofoca de que desmanchou o relacionamento porque o tamanho não a satisfazia.
Uma coisa é concorrer com o vizinho, outra é concorrer com Rodrigo Santoro.
Mostrando que é do mesmo sangue, meu irmão não deixou por menos. Uma semana depois, de um modo premeditado, é óbvio, comentou olhando para o lado, assim como quem permite o guardanapo cair, de que Robert Pattinson é excêntrico e não toma banho. Desejava, no mínimo, eliminar a incômoda fantasia do box.
– Como descobriu?
– A notícia estava num site e li por acaso.
– Que nojo, Robert parecia tão cheiroso.
Ele não contou que pesquisou tudinho sobre o ator, cabulou uma tarde do serviço, criou uma pasta exclusiva com informações confidenciais de sua história, de seus hábitos e superstições, que a expressão mais pedida em seu Google era Pattison. PATTISON. Com a convivência forçada, criou uma simpatia pelo sujeito, mas era tarde para iniciar amizade.
Mais grave foi um amigo carioca, nova vítima do Crepúsculo de Stephenie Meyer.
– Não aguento mais esse seu calendário pilomax: lua nova, eclipse, amanhecer?
A esposa comprou a coleção inteira e passava os dias lendo. Não é um modo de expressão: lia co­­­mendo, lia no banheiro, lia atendendo os filhos, lia de pé.
Nem conversava mais com ele, a não ser quando surgia a palavra-chave “imortalidade”.
Assoberbado de inveja, inventou de arrancar com estilete a última página do quarto e último volume. Nem despistou, aparecia na costura a rebarba da folha censurada.
Pressionado pela mulher, confessou o crime, cheio de razão.
– Nunca saberá o final da história?
– Não preciso, a nossa termina por aqui.
Divorciado, duro, frustrado, hoje entende que as mulheres sempre preferiram os vampiros aos lobisomens.

Homens que me lêem, por gentileza, confirmem a premissa do autor. Elogio ao físico de outro, ainda que seja um ator, inatingível, é tão devastador assim??

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(Espaço para pensarem)

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Então, por que nós, mulheres, precisamos aguentar as intermináveis comparações com as Julianas e Giseles da vida???

Fica a questão.

 

PS – Marido não anda me comparando com ninguém, não. O “nós mulheres” é uma forma de generalizar. Mas pra ele, fica a dica: Não compare. ;)

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