10.1.10

A viagem do elefante

Nos últimos dias de 2009 eu li “A viagem do Elefante”, de Saramago. Não sei porque coloco Elefante com E maiúsculo, se Saramago faz questão de colocar em minúsculas todos os substantivos próprios. Mas, enfim, esse é o estilo dele, e apesar de ser toda cri-cri pro lado das regras de ortografia, eu gosto. Os parágrafos gigantescos, as vírgulas usadas como travessão, os diálogos explicados de maneira indireta… e mais do que tudo, usar uma historinha sem graça – a viagem de um elefante [o paquiderme, mesmo, não é nenhuma figura de linguagem, não] de Lisboa até Viena,(onde ele seria entregue ao Arquiduque Maximiliano II da Áustria, como presente do rei de Portugal) para falar da vida, de passado, presente e futuro, de autoestima, de felicidade… e até de imagem e fotografia.

É claro que ao ler um livro você escolhe como vai receber em seu coração a leitura. Se vai ler somente as palavras escritas e a estória explícita… ou se vai buscar nas entrelinhas o que está dito além do explícito. E, abstraindo a estorinha do elefante, eu me deliciei com tudo que encontrei ali. Como o livro não era meu, não pude grifar, então tentei copiar alguns framentos. Não vou comentá-los aqui, vou somente transcrevê-los. E voltar de vez em quando para reler e repensar sobre. Porque “sempre se chega onde se tem que chegar.”

Sobre a vida

“a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginávamos silencios, e súbitos regressos quando pensávamos que não voltaríamos a encontrarnos.”

“não discutas com quem manda, aprende a viver.”

“não é todo dia que aparece nas nossas vidas um elefante.”

“irão dar-lhe muitas palmas, irá sair muita gente às ruas e depois esquecem dele, assim é a lei da vida, tiunfo e olvido.”

Sobre o tempo

“eu aqui entalada entre o hoje e o futuro, e sem esperança em nenhum dos dois.”

“o passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam saber o que há por baixo delas.”

Filosofando…

“costuma-se dizer que as paredes têm ouvidos, imagina que tamanho terão as orelhas das estrelas.”

“estranho animal é este bicho homem, tão capaz de tremendas insônias por causa de uma insignificância como de dormir à perna solta na véspera da batalha.”

“qualquer lugar em que se encontre [o elefante indiano] é índia, uma índia que, seja o que for que suceda, sempre permanecerá intacta dentro dele.”

Sobre a felicidade – Achei fantástico, isso explica porque escrevemos melhor quando estamos tristes:

“estes quinze dias, duas semanas de felicidade autêntica, e, portanto, sem história.”

Sobre imagens e fotografia

“Como já deveríamos saber, a representação mais exata, mais precisa da alma humana é o labirinto. Com ele tudo é possível.”

“Pena que no século dezasseis a fotografia ainda não tivesse sido inventada, porque então a solução seria facílima, bastaria inserir aqui umas quantas imagens da época, sobretudo se captadas de helicóptero, e o leitor teria todos os motivos para considerar-se amplamente compensado e reconhecer o ingente esforço informativo da nossa redação.”

“A verdade, se quisermos aceitá-la em toda a sua crueza, é que, simplesmente não é possível descrever uma paisagem com palavras. Ou melhor, ser possível, é, mas não vale a pena. Pergunto se vale a pena escrever a palavra montanha se não sabemos que nome se daria a montanha a si mesma. Já a pintura é outra coisa, é muito capaz de criar sobre a paleta vinte e sete tons de verde seus que escaparam à natureza, e alguns mais que não o parecem, e a isso, como compete, chamamos arte. Às árvores pintadas não caem as folhas.”

“Realmente, o maior desrespeito à realidade, seja ela, a realidade, o que for, que se poderá cometer quando nos dedicamos ao inútil trabalho de descrever uma paisagem, é tê-lo que fazer com palavras que não são nossas, que nunca foram nossas, repare-se, palavras que já correram milhões de páginas e de bocas antes que chegasse a nossa vez de as utilizar, palavras cansadas, exaustas de tanto passarem de mão em mão e deixarem em cada uma parte de sua substância vital.”

É claro que tem ainda muito mais… vale muito a pena ler A viagem do Elefante. José Saramago, Cia das Letras, 2008.

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