24.1.10

Longe do País das Maravilhas

(Esta é uma história real, qualquer semelhança com pais e crianças que você conhece não será mera coincidência)

image Sábado à noite. Família Feliz (papai, mamãe, titia, três pré-adolescentes e Alice, 2 ou 3 anos) chega à pizzaria. Alice tem lindos cabelos dourados, com leves cachinhos e olhos brilhantes de garotinha esperta e inteligente. A mamãe da outra Família-Feliz-da-mesa-ao-lado olha para Alice com carinho, lembrando que esse seria o nome de sua outra filha, se tivesse tido.

Titia leva Alicinha para ver Branca de Neve e os Sete Anões no jardim, Branca de Neve é quase do tamanho de Alice, mas ela mal se interessa pela colega de conto de fadas. Alice quer mesmo é uma fanta bem gelada. O garçon não demora e traz duas garrafas de vidro, que provocam frisson em Alice e aplausos de toda a Família Feliz!

Mamãe serve as crianças e eles brindam, fazendo tin-tin com os copos descartáveis. A Família-Feliz-da-mesa-ao-lado se enternece com a reação de Alice - e de toda a família dela – com algo tão simples como uma fanta, que gera tamanha felicidade. Opa! a felicidade da fanta dura pouco, pouco mais de um minuto: Alice não controla bem o copo, derrama o líquido precioso, e frustrada, amassa seu copo e o joga no chão!

Que coisa terrível, Alice! Papai não admite que Alice tenha jogado o copo, e exige que ela pare de chorar – afinal de contas, o que é um copo de fanta??? – e pegue o copo do chão, ecologicamente corretamente agindo. Com a recusa de Alice em pegar o copo, Papai resolve que ela vai ficar de castigo, sentada na cadeira.

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Mas para uma criança de 2 ou 3 anos, o que importa a educação e a ecologia (“isso não é lugar de jogar o copo, jogue no lixo!”), diante da fanta perdida? O País das Maravilhas colorido de laranja se transformou no inferno regido pelo Rei Papai de Copas (a Rainha Mamãe se manteve nula na situação).

Supernanny não contou pro Rei Papai de Copas que o tempo de castigo para criança pequenas deve ser limitado a um minuto por cada ano de vida do pimpolho, e após ter ficado seus dois minutos no castigo – e sem fanta – Alice desceu da cadeira, para ir – oh, surpresa! – se jogar no colo do Papai. Não, você não merece colo, Alice! Não antes de pegar o copo do chão!

E começa uma disputa ferrenha pelo poder: Papai força Alice a sentar, Alice esperneia e se contorce gritando, Papai usa toda a sua força de homem grande e muitos minutos vão passando enquanto a Família-Feliz-da-mesa-ao-lado já está indócil, com a Mamãe quase levantando pra ir dizer ao Rei Papai de Copas a conta da Supernanny, ou para acalentar Alice, que para provar que crianças são puras de alma, ainda desejava ir pro colo do Papai. Mamãe de Alice só se preocupa com o vexame que Alice está dando. Afinal de contas, a Mamãe da Família-Feliz-da-mesa-ao-lado olha deslavadamente para ela, com aquela cara de reprovação que todo mundo conhece.

Mas Alice vence papai e consegue sair da cadeira, fazendo seu buraco para o País das Maravilhas embaixo da mesa. Titia e os três pré-adolescentes não abriram a boca, talvez porque conhecessem o Rei Papai de Copas, e não quisessem que a ira que era destinada apenas a Alice se voltasse para eles: Cortem as cabeças! De repente Alice pára de chorar (ou o barulho deixa de ser ouvido pela Família-Feliz-da-mesa-ao-lado) e a Família-já-não-tão-feliz fica curtindo aquele momento de silêncio constrangedor que antecede a chegada da pizza.

Titia sente falta de Alice e termina por descobri-la dentro da cozinha da pizzaria. Ao voltar, Alice busca seu País das Maravilhas embaixo da mesa.

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É claro que o Rei Papai de Copas não gosta, e recomeça a guerra. Mas aí a pizza chega, e o choro e os gritos de Alice passam a ser algo secundário. A família come a pizza enquanto Alice grita, com pequenos intervalos, quando Mamãe passa pizza por baixo da mesa e ela ocupa a boquinha.

A Família-Feliz-da-mesa-ao-lado se levanta para ir embora, e sai com a impressão de que a história poderia ter tido um final feliz. Bastava que papai ou mamãe pedissem uma outra fanta, deixassem que o garçon limpasse a lambança, e esperassem a pizza curtindo a felicidade do sábado à noite. Mas o Rei e a Rainha de Copas decidiram disputar o poder com uma garotinha de 2 anos, e perderam. Pelo menos restou algo positivo: inspiração para este post. E esse é o texto escrito por uma mamãe que não tem medo de falar sobre educação de filhos, porque além dos dois que pariu, já educou muitos outros, que considerou filhos enquanto foram alunos.

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