14.2.10

Julie & Julia – o livro - Valendo pelo Desafio Literário - Julho

ATENÇÃO: Esta é uma resenha louca e contém spoillers. Se não leu o livro ou não viu o filme e não quer estragar a surpresa, PARE AGORA. Mas se, apesar de não ter lido nem assistido, você quiser continuar, vai ler sobre minhas impressões como comunicóloga, como blogueira e como mulher-não-amante-de-culinária. Acho que são características que me credenciam a emitir uma opinião bem específica e que deve valer alguma coisa.
“A Desafiante:
Julie Powell, prestes a completar 30 anos, presa a um emprego sem perspectivas e em busca de um novo rumo para sua vida.
O Mito:
Julia Child, autora do livro de receitas que apresentou as maravilhas da culinária francesa às donas-de-casa americanas.
O Desafio:
Preparar todas as 524 receitas de MAstering the Art of French Cooking, o livro clássico de Julia Child, em apenas um ano – e sobreviver para contar a história.”
Contra-capa do livro. Editora Record, 2009.
Gentilmente emprestado pela Tâmara.
A capa original, e a capa pós-filme:image
image
Parece que foi escrito para ser roteirizado. Porque tem umas passagens tão bruscas entre o que é a vida de Julie narrada por ela mesma, e o diário de Samuel Pepys e a vida de Julia e seu marido Paul, que faria sentido num filme, mas num livro fica como que faltando alguma ligação. Samuel Pepys é um cara comum que escreveu um diário por 9 anos, de 1660 a 1669, e ela faz toda uma relação desse cara com os blogueiros de hoje. Samuel escrevia um diário, sem qualquer expectativa de ser lido, e os blogueiro, ou nós blogueiros escrevemos jogando as palavras e frases para o mundo, e mesmo desejando ser lidos. A grande intersecção entre ele e nós, é que , segundo ela, o simples fato de escrever sobre detalhes corriqueiros ou acontecimentos mais relevantes da vida transformava esses detalhes e acontecimentos em coisas importantes, ou pelo menos incomparáveis.
Julie Powell escreve de maneira muito direcionada para a compreensão plena de quem conhece e utiliza a internet e ferramentas como o blog, assim faz como muuuuitas referências a filmes – sem qualquer explicação, supondo que o leitor tenha uma vasta cultura, não somente em cinema como em termos franceses, bairros de New York, seriados e comerciais americanos, costumes texanos e, lógico, em culinária.
Acho que já foi “pensado como filme” porque as descrições de receitas são estranhas… tudo bem que eu não gosto de cozinhar, mas juro que mesmo me esforçando, fica difícil fazer a imagem mental das cenas de Julie cozinhando, porque são tantos termos franceses não traduzidos, e quando são traduzidos são sempre com uma piadinha que nem sempre eu entendo – e duvido que seja qualquer um que entenda, é restrito demais.
Além disso são termos que não consigo classificar de outra maneira, além de estranhos. Os que estão em itálico são aqueles em fancês, não traduzidos. Os outros são palavras tidas como correntes, e perfeitamente compreensíveis aos leitores, e que para mim soaram como um sonoro hãaa? : Potes mise en place. Aspic. Estragão. Tapete flokati. Jalapeños. Plombières. Boeuf Bourguignon. Pot-au-Feu. Gemas cristalizadas. Manteiga clarificada. Ovo escalfado. Não vá pros pââââââântanos. Revista GQ. Buffy. Sauce a la Moutarde. Concombres. Cynthia Nixon. Homard Thermidor. Chalotas. Fôrmas de charlotte. Bolo Baskin-Robbins. Gimlet. Mouclades. Gaze de cozinha. Deglace a panela [não é tirar o glacê, nem desgraçar. Mas o que é, eu não descobri.]. Sassafrás. Gumbo. Pastrami.
“Passa creme na pele ou toma jato d’água outra vez. (Não acredito que você não viu O Silêncio dos Inocentes! – Vamos alugar no netflix.” Rá! Eu sei como funciona o netflix [eu acho], pq a Márcia me falou sobre!)
Ouefs en Gelée, ela traduziu como Ovo escalfado em aspic, o que pra mim não traz imagem nenhuma. Escalfar só me lembra escalpelar, mas aí teria que achar cabelo em ovo (trocadilho infame, eu sei, mas estou absorvendo o estilo dela!) e ainda fica faltando o aspic… Dias de Blanche (esses ela explicou, mas se você não sabe, joga no Pai Google!).
Eu não procurei NADA disso no Pai Google, mas Felipe e Karol, que almoçaram domingo passado aqui, conosco, procuraram, depois que eu comentei sobre o livro e as expressões. Então, hoje, algumas já não são tão desconhecidas pra mim. Mas não precisam me dizer o que é, não… eu sei googlar, só não fiz porque queria escrever “no escuro”, sacomé?
Além disso ainda têm os palavrões. Ela parece ser uma “mulher normal”, com tudo que uma mulher pode viver, inclusive o costume de xingar por tudo e por nada, usando palavrão como vírgula, mas juro que escrito fica estranho. Mais um motivo de eu achar que já foi pensado pra ser filme. Falado pesa menos.
Reflexões de Julie em hiperlink, isto é, uma coisa levando a outra, exatamente como é na nossa cabeça, ou pelo menos, na minha. Ela vê um osso de boi, de onde precisa extrair o tutano, e faz todo um arrazoado sobre o sofrimento do boi, e o vegetarianismo, depois passa para uma relação comparativa do prazer de comer o bife “com tutano derretido” (não consigo nem imaginar como seja) com o de “uma transa muito boa”. E chega à conclusão que “é comer minha própria vida”. Muito louco. Ou muito louca, ela. E muito loucos os comentários irônicos que estão no pensamento dela enquanto ela narra um telefonema com uma amiga ou com um cliente, no trabalho.
“Às vezes , a gente vê um relance da vida por um ângulo completamente novo. Existem portas ocultas, armadilhas por todas as partes. De repente você dá de cara com uma delas e […] é quando se dá conta de que o mundo é muito maior do que imagina.” (p.193)

Eu me senti particularmente atraída pela semelhança com Julie nos Projetos (no meu caso, em maioria fotográficos) que me proponho e nos sentimentos que ela relata. É da série “poderia ter sido eu…”
“Sem o Projeto, não passava de uma secretária sem futuro, a deriva, esperando chegarem os cabelos brancos” (p.187)
“Porque não é todo mundo que encontra uma toca de coelho que vai dar no País das Maravilhas. Pensando bem, eu era uma baita sortuda.” (p. 194)
“Eric não era um cozinheiro e, assim como Isabel, só se importava com Julia Child por minha causa. Ainda assim, ele se tornara parte disso. Não haveria Projeto sem ele, e ele não seria o mesmo sem o Projeto. De repente me senti tão casada e tão feliz!” (p. 204)
Julie dá uma atenção especial aos comentários dos seus leitores, especialmente na passagem sobre a receita de “Arroz Filho da Puta” (Riz a l’Indienne). Nessa parte do livro eu fiquei pensando que seria bem assim o livro de Dinah, que retratasse seu blog e a “suruba” (no bom sentido) que é o Haloscan, com comentários absoluta e absurdamente interativos entre um seleto grupo de comentaristas Eu, Rejane e Liane (as filhas), Sandrinha, Renato e [raramente] Luísa (os netos) e Jucemir, o grande provocador, que faz do box de comentários um lindo chat particular.
A mãe de Julie, talvez por não conseguir entender o Projeto e tudo que ele significava não somente para a própria Julie, como para Eric e para os leitores do blog, não somente não apoiou, como o quanto pôde, desapoiou [neologismo consciente]. Então, na parte em que ela transcreve o comentário da mãe… eu me arrepiei todinha, e senti uma alegria imensa lá no fundo, como se tivesse sido comigo.
“Um dado interessante a respeito dos blogs é que eles lhe dão carta branca para você se lamentar. Quando Eric simplesmente não conseguia mais aguentar minha choradeira, eu podia levar minhas queixas ao ciberespaço. Lá, sempre encontrava um ouvido solitário e compreensivo”. (p. 242) – Isso só mesmo quem tem “um divã particular” que nem esse aqui é que vai entender! Rá!
No fim das contas, Julie consegue dar conta do projeto, é claro que com muitos episódios de choro, vntade de desistir e erros, mas o que me surpreendeu é que ela encerra a maioria dos relatos com “ficou uma delícia” ou expressões similares. Apesar de às vezes o prato parecer “feio”, as receitas de Julia Child eram mesmo (ao que parece) boas, no que diz respeito ao sabor. E gordurosas, manteiga era ingrediente essencial. Na década de 60, quando o livro foi escrito, medir o colesterol no sangue não era prioridade de saúde.
Bem, depois da primeira vez que ela escreveu “Fim”, (foram 3, ao todo), eu parei de ler. Visivelmente ainda faltava um capítulo. Mas ficou em mim a sensação de que eu não queria que acabasse, que ela acabar o projeto e eu acabar o livro ia fazer com que ficasse faltando alguma coisa. Uns dois dias depois retomei a leitura. E me deu ainda mais a sensação de que o livro foi escrito pra ser filme. Sabe aquelas situações em que você acha que acabou, mas não acabou? E depois, de novo, e de novo.. e aí acaba de verdade e você ainda espera alguma coisa, mas sobrem os créditos? (No caso, os agradecimentos). Me senti assim.
Hoje, 14 de fevereiro, mais de uma semana depois de ter terminado de ler, planejamos ir ao cinema, assistir o filme. E eu ia coroar minha resenha louca com as impressões sobre o filme. Mas… o cinema estava fechado! Domingo de carnaval, e eu achando que haveria sessão normalmente. Bléh. Frustração mode on. Tem nada não, o filme renderá um post exclusivo, espero assistir ainda esta semana. E o carnaval de Ilhéus também será assunto para o post - de amanhã, eu acho.

Nenhum comentário: