27.3.10

Desafio Literário - Março

O livro escolhido foi “A Hora da Estrela”  – Clarice Lispector. Download aqui.
Como sempre, comecei a ler o livro do mês na última semana. Escolhi esse por imaginar ser uma leitura fácil, mas não pensei que fosse ser tão fácil. Clarice é gostosa de ler até em e-book, mas eu imprimi e aproveitei as esperas de ontem e hoje, não foram nem 48h pra devorar a história de Macabéa, uma alagoana que migrou para o Rio de Janeiro. Na verdade, o livro é muito mais uma reflexão sobre o escrever, sobre a vida e sobre o mundo, sobre Deus e sobre tudo, onde o narrador é um escritor que se justifica o tempo inteiro, tentando explicar porque escreve, como escreve, o que escreve.
“Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.”
“Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior inexplicável.”
A história de Macabéa é ao mesmo tempo simples e incrivelmente complexa. Uma mulher que não tem consciência de quem é, do que é, nem do que é a vida. Uma mulher sem sonhos, sem desejos, sem poder… e na vida de quem não acontece NADA. Mas essa história de ninguém e de nada é infinitamente rica de reflexões por parte do escritor, que se apresenta como narrador onisciente. Um escritor que empurra com a barriga – e com suas  reflexões em hipertexto -  o início da história a ser escrita, justifica-se o tempo inteiro e explica o que ninguém perguntou:
Transgredir, porém, os meus próprios limites me fascinou de repente. E foi quando pensei em escrever sobre a realidade, já que essa me ultrapassa. Qualquer que seja o que quer  dizer “realidade”. O que narrarei será meloso? Tem tendência mas então agora mesmo seco endureço tudo. E pelo menos o que escrevo não pede favor a ninguém e não implora socorro: agüenta-se na sua chamada dor com uma dignidade de barão.
É. Parece que estou mudando o modo de escrever. Mas acontece que só escrevo o que quero, não sou um profissional – e preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela. Escrevo em traços vivos e ríspidos de pintura.
Interessante é que já encontrei citações desse livro como sendo simplesmente de Clarice Lispector, quando, na verdade, não se sabe se é o que ELA pensava sobre escrever. É a fala do escritor, que é PERSONAGEM  do livro.   Então, só uma dica: quem cita Clarice – e foi Clarice quem escreveu mesmo – sobre o ato de escrever usando as palavras do escritor de A Hora da Estrela, não pode esquecer que não necessariamente é essa a opinião da própria Clarice sobre o ato de escrever.
Mas voltemos à história de Macabéa.  Triste e dolorida, me motivou a ler rápido pra chegar logo no final e ver se melhorava… mas não melhorou.  A Hora da Estrela chegou… de uma maneira bonita, pois chegou com a consciência de si e da possibilidade de ser feliz.
“Ficou inerte no canto da rua, talvez descansando das emoções, e viu entre as pedras do esgoto o ralo capim de um verde da mais tenra esperança humana. Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.
Prestou de repente um pouco de atenção para si mesma. O que estava acontecendo era um surdo terremoto? Tinha-se aberto em fendas a terra de Alagoas. Fixava, só por fixar, o capim. Capim na grande Cidade do Rio de Janeiro. À toa. Quem sabe se Macabéa já teria alguma vez sentido que também ela era à-toa na cidade inconquistável. O Destino havia escolhido para ela um beco no escuro e uma sarjeta. Ela sofria? Acho que sim. Como uma galinha de pescoço mal cortado que corre espavorida pingando sangue. Só que a galinha foge — como se foge da dor — em cacarejos apavorados. E Macabéa lutava muda.
Vou fazer o possível para que ela não morra. Mas que vontade de adormecê-la e de eu mesmo ir para a cama dormir.”
Não creio que seja coincidência, mas semana passada li “Um toque na Estrela”, de uma feminista francesa, Benoît Grout, recomendado por Dinah. Este fala sobre o envelhecer e sobre como a mulher que está envelhecendo se vê e vê o mundo, até chegar na hora de tocar a tecla da estrela… e morrer.
Salvador - março 2010-1
Juntos, esses livros me trouxeram  deliciosos momentos de prazer com a leitura e de reflexão.
“Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre.
Mas — mas eu também?!
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim.”
[Me lembrem, depois de falar sobre a velhice e sobre o que tem acontecido ultimamente com os meus dois velhinhos fofos.]

PS - Há pouco mais de dois meses eu li Clarice – Uma vida que se conta, biografia escrita por  Nádia Battella Gotlib. Recheado de fotografias, conta a história de Clarice desde a vinda de seus pais da Europa Oriental, fala de sua infância em Recife – que por conhecer o lugar, foi especialmente interessante pra mim –, de seus estudos e suas experiências na escola e suas primeiras tentativas – frustradas - de publicar seus escritos nos jornais. Nádia mostra uma Clarice atormentada e solitária, ao mesmo tempo em que mostra uma mulher segura e  independente. Vale a leitura.

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