10.6.10

Os artistas e o respeito ao público

Não foi a primeira vez. Ontem fui a um show, num ambiente tranquilo e confortável, intimista, apesar de grande. Show no estilo voz e violão. E a cantora, até simpática, solta: “Este é o primeiro show que estou fazendo depois de passar um tempo mergulhada em outro projeto. E nem preparei um roteiro de músicas… só anotei algumas aqui, e vou cantando…” deixou em suspenso, e eu poderia escolher o final: vou cantando até vocês enjoarem, vou cantando até eu cansar, vou cantando até acabar o repertório, vou cantando até ficar rouca

Apesar de ter trabalhado na área de música, e ter organizado zentos “shows” (entenda por “show” apresentações de corais de idades e níveis musicais variados), eu jamais pisaria num palco sem saber EXATAMENTE o que faria. Tudo bem que eu nunca pisava no palco sozinha, mas ainda que fosse, precisava saber direitinho o que iria fazer.

Escolher o repertório é fundamental. Ela escolheu bem: algumas músicas próprias – e que fazem sucesso, algumas de grandes nomes da MPB. Mas outra coisa muuuuuuuuito importante, é o programa em si, a ordem das canções. Era algo que me consumia o juízo, pra não dizer que me deixava mais preocupada do que tudo o mais. Eu cronometrava o tempo da apresentação, dava um intervalo, mas principalmente, escolhia muito bem com que música começar, e com que música terminar. E, óbvio, qual a ordem do que viria pelo meio.

Às vezes escolhia um tema, e passava metade do ano ensaiando sobre aquilo… outras vezes, um estilo, em outras, um compositor… mas o gran finale era essencial. Precisava ser a melhor música, a mais pra cima, a mais animada, a melhor produção do semestre. E ainda tinha o bis. Escolher as músicas do bis, era outra tarefa árdua, porque não podia ser nada menor do que já havia acontecido. E, não, o bis não é reprise de uma das músicas, nem mesmo da última.

E foi aí que ela pecou, e foi um pecado quase capital. Cantou os grandes sucessos primeiro, e foi “morrendo”, com canções novas (desconhecidas) dela e de outros compositores. O público já estava sem graça, quando depois de uma bossa joãogilbertiana ela disse: “É isso, Ilhéus. Com essa eu me despeço”. Hã? Como assim??? O povo começou a pedir as músicas pelo nome, e ela, perdidinha, cantou ainda mais DUAS desconhecidas. Como é que no bis você diz: vou cantar uma música NOVA? Mas, enfim… cantou a “nova”… e outra mais desconhecida ainda… pra a última ser uma que recebeu aplausos logo na introdução. Era o público dizendo: “Ufa! Alguma que eu conheço, alguma que eu gosto!”

Resumo da noite: Uma hora – exata – de show, repertório legal, a mulher é boa mesmo no violão, segurou a onda absolutamente sozinha… mas se tivesse respeitado o público e pensado nele, primeiro jamais teria dito que não planejou o show. Segundo, as músicas novas estariam bem no meio do programa, e os pedidos do público poderiam ser atendidos no bis.

Ah, aproveitando a ocasião, digo que o mesmo vale para pastores/padres e afins que não preparam a mensagem, porque têm facilidade de improvisar apenas lendo um texto bíblico ou escolhendo um tema. #prontofalei

PS- Sem fotos e sem o nome da cantora, porque é uma questão puramente teórica.

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