27.11.10

Passeio Socrático

 

Marta me mandou este e-mail, que me coube bem, ao parar pra pensar em "que presente quero ganhar no Amigo Secreto". Sim, embora eu já tenha dito que nunca mais entraria numa "brincadeira" dessas, entrei em uma única, este ano. Explico, por partes:

1. "Brincadeira" está entre aspas porque pra mim, brincadeira supõe diversão, supõe pessoas que se querem bem, e supõe que todos os envolvidos saiam da brincadeira satisfeitos, ou se saírem tristes, é pelo fato da brincadeira ter acabado. Na maioria das vezes, minha participação nesse tipo de "brincadeira" é dolorosa.

2. O grupo que resolveu "brincar" de Amigo Secreto este ano, e no qual estou inserida, é beeeem pequeno, com gente que se conhece e se ama, e todo mundo já teve experiências ruins, no assunto. Estamos usando o site www.amigosecreto.com.br e nos divertindo com os bilhetinhos colocados no mural ou enviados anonimamente.

Mas, divago. Isso tudo é pra dizer que por ter entrado na brincadeira, precisei dizer "o que quero ganhar". Vocês acreditam que eu não quero nada? Quer dizer, querer, eu quero, mas o que eu quero são coisas que não rola pedir num amigo secreto, tipo lentes para minha Nikon e outros equipamentos fotográficos.  O texto de Frei Beto me fez refletir sobre essa ânsia de ter, a gana de conseguir comprar algo, somente porque "todo mundo tem". A frase final, de Sócrates, é uma paulada no consumismo.

Acabei de ver na TV uma propaganda da Fiat, onde um astronauta na lua, vestido em roupas espaciais olha pro lado e vê o "colega" sem as benditas roupas, e sufocado, por não poder respirar. E ele pergunta: "Peter, você não acha que está faltando alguma coisa?" E o slogan aparece: Na verdade, o que está faltando é um Fiat. Não encontro uma palavra para descrever esta peça publicitária, porque simplesmente não comunica nada, é ilógica e não dá pra dizer, em sã consciência, que ela remete à marca, seja por que caminho for. Tosca. Mas reflete  a realidade contemporânea de que somos empurrados ao consumo para poder fazer parte (ou continuar fazendo parte) do seu grupo social.

E para ser feliz, do que é que eu não preciso???

PASSEIO SOCRÁTICO

Por Frei Beto

Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse.

O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.
...
Marx já havia se dado conta do peso da geladeira.

Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós”.
O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social.

Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.

Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígine cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém.

Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um vinho guardado na adega, uma jóia?

Assim como um objeto se associa ao seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife.
Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em Cinderela...

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.

Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc.

Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas.
Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.

Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo.

"Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói."

E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo.

"Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico:

Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia:
"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

3 comentários:

Jady disse...

É o meu caso... Nada do que eu realmente queria se pede a alguém. ;-)

Beijo

Carla Ceres disse...

Adorei os textos, Bel! Chegaram em ótima hora, bem na época da maratona de compras e de amigos secretos. Me faz lembrar de uma vez que eu disse que queria ganhar um kit de rapadurinhas de amigo secreto. Era uma novidade local, várias rapadurinhas com sabores diferentes. Ganhei uma caixa de bombons de shopping porque acharam o meu pedido uma pobreza. Beijos!

Teena in Toronto disse...

Happy blogoversary :)