21.2.11

A moça-que-trabalha-aqui-em-casa

Sabe quando um assunto está gritando pra ser tratado aqui no blog? Primeiro foi semana passada, quando mamys recebeu  a visita de Maria, a "Minha Maria", que trabalhou lá em casa (eu não morava aqui) durante 7 anos, enquanto os meninos ainda eram bem pequenos, e ela fazia todos os dengos e gostos deles (e do resto da família também). Pensei em escrever sobre a continuidade da nossa relação, mesmo depois de ela ter saído lá de casa. [O marido dela não quis mais que ela trabalhasse, vá entender.]

Depois Michela (a moça-que-trabalha-aqui-em-casa atualmente) teve um probleminha de saúde e eu achei a coisa mais natural do mundo eu cuidar dela, já que todos os dias ela cuida de mim. Quis falar sobre isso, mas estava naquela fase do  pufff...

Aí veio o Post da Aline Monteiro sobre a Aline (moça-que-trabalha-na-casa-dela), e quando comentei lá, desejei mesmo escrever sobre isso, mas... pufff. Aliás, é da Aline Monteiro o direito autoral de chamar "a-moça-que-trabalha-lá-em-casa. Eu chamo de empregada, sem problema, mesmo porque sempre encarei a palavra "empregada" como algo positivo, afinal de contas, negativo é "desempregada", ou não é?

Por fim, foi a própria Michela que hoje me chamou de um jeito que não deu pra deixar passar o assunto. Finda a introdução, vamos ao desenvolvimento do assunto, de fato.

Eu sempre convivi com empregadas domésticas, desde que era criança. Mas nunca me senti "a patroinha" ou a "Sinhá Moça", com tudo a seus pés. Sempre entendi que a empregada doméstica estava ali para fazer o trabalho que minha mãe [e eu] não gostava[mos] de fazer, e que sem ela a coisa ficava preta. E fui ensinada a tratar bem, com delicadeza e respeito, pedir sempre "por favor", agradecer por tudo que ela fazia, desprezando o fato de que ela fazia como trabalho, mas como na verdade era um escape para que eu não fizesse o trabalho... vamos agradecer, e de coração.

Depois que tive minha própria casa, tive a sorte de ter poucas empregadas, que ficaram por muito tempo comigo. Pela ordem:

Nalva, que ficou 3 anos, e que eu "dei" pra Rosane, quando ela foi fazer doutorado na Inglaterra, e precisava de uma babá pro filhinho, com apenas 3 meses. Resumo da ópera: Rosane voltou Doutora depois de 4 anos, e Nalva ficou lá, hoje mora na Suíça e casou com um italiano... se vacilar, fala mais idiomas do que eu. Viva ela!

Wilma, que ficou 2 anos, e saiu porque endoidou afetivamente, largou o marido e se mandou pro Rio ou São Paulo, não sei. Enfim, ela que sabe da vida dela.

Marlene, que ficou 4 anos, e foi a única que me deu 1 x 0, porque resolvia fazer a feira dentro da minha despensa... e pela primeira vez eu me vi tendo que despedir alguém e dizer o motivo. Ela, a princípio, negou, mas depois quando eu pedi pra ela abrir a bolsa e lá estavam um quilo de arroz (no saco, cru) e um pacote de biscoito recheado, teve que admitir. Foi horrível, graças a Deus foi a primeira vez e a última.

Aí veio Maria. Caída do céu. Um tempero delicioso, aprendia receitas só de ver alguém fazer uma única vez. Completamente analfabeta, gerava inúmeras situações constrangedoras - e até mesmo engraçadas, depois que passava, óbvio. Maria frequentava a mesma igreja que eu, e foi lá que começou: -Maria...  -Que Maria? -Maria de Anabel. E a partir daí, até ela própria, quando falava com alguém, dizia: "É Maria, de Anabel". Mas aí teve o marido... e Maria se foi de minha casa, mas não de minha vida. Telefona em todos os aniversários, se alegra e sofre conosco, era amiga e continuou amiga pra sempre.

Quando fiquei sem Minha Maria, minhas amigas tentaram me ajudar, e uma delas ia se mudar da cidade e perguntou se eu não queria conversar com a empregada dela, super super maravilhosa. Tentei, mas apareceu um outro emprego de verão, numa pousada e a moça preferiu esse. E... me encaminhou a irmã, que nunca havia trabalhado como doméstica, mas eu, acreditando que Deus nunca me desampara, topei, e acertei com ela.

Vera. Gente boa de tudo! Mas o primeiro almoço... argh, um horror. Meu ex-marido decretou: Não dá, é terrível. Mas eu, acreditando que Deus nunca me desampara... pedi a três das minhas melhores amigas e excelentes cozinheiras, que viessem dar umas aulinhas de culinária pra Vera. Bingo! Vera se tornou uma cozinheira MARA. Ao contrário da Minha Maria, Vera tinha feito o 2º grau, e quando precisava encontrar um livro, bastava dizer o nome, em vez de descrever a aparência do livro, como fazia com Maria. Vera se tornou "Santa Vera", que não me deixava esquecer compromissos, horários de dentista e médico, fazia a lista de compras, estava disponível para trocar qualquer dia por um domingo em que eu tivesse visitas, e o melhor de tudo: Santa Vera se tornou minha amiga. Aguentamos juntas as dificuldades com nossos casamentos, trocamos confidências, conselhos... até que precisei dar a ela um conselho que foi bom pra ela mas não-tão-bom pra mim: Vá atrás de seu marido (que estava trabalhando em São Paulo). Vera se foi na mesma época em que eu comecei a trabalhar o dia todo na UESC, fiquei sem filhos em casa e por isso mesmo senti menos a falta dela, do que sentiria se estivesse em casa.

Aí casei de novo, e alguns meses depois, entrou na minha vida "Santa Michela". Indicada pela "Santa Claudete" (a moça-que-trabalha-com-minha-mãe), Michela chegou com uma apresentação tão boa, que Marido disse: "Ela não vai demorar aqui, é boa demais pra esse trabalho de doméstica". Mas eu, acreditando que Deus nunca me desampara... decidi que era melhor tentar, se ela ficasse pouco tempo e saísse pra um emprego melhor pra ela, Viva!

Santa Michela me saiu melhor que a encomenda.  Criativa, cuidadosa, sabe onde colocar cada coisa, cuida da minha casa "como se fosse a dela", é bem humorada, até vive me vigiando nas dietas (e ela mesmo me sabota, porque faz cada sobremesa gostosa...), encontra livros, documentos, e qualquer coisa que eu "perca" dentro de casa... e tem se tornado minha amiga também. Hoje ela me disse que é feliz trabalhando aqui, e que mesmo doente, ela prefere vir trabalhar, porque sabe que aqui encontra uma "mãe-troa" que cuida dela. Fiquei emocionada. [Não que eu tenha idade pra ser mãe dela, porque a diferença entre nós é de 12 anos, e eu menstruei com 13, quase 14, então... é linguagem figurada, mesmo.] Mas gostei muito de saber que em 8 meses que ela trabalha aqui já temos  esse relacionamento bom, de respeito e de amizade.

Fico muito triste quando vejo pessoas [patroas] que tratam as empregadas com desrespeito, com desdém, falando delas como se elas não estivessem ouvindo... só reclamando, só dizendo que não sabem fazer as coisas... Poxa, se ela não faz direito, ou ensina a fazer, ou dispensa. Viver num ambiente hostil ninguém merece. Também não gosto de ver empregadas que não reconhecem a autoridade da patroa, e que só fazem o que querem. Comigo não rola. Eu não brigo. Mas ou faz do meu jeito, ou tchau. Do mesmo jeito que se eu não estiver satisfeita num emprego, não fico falando mal: peço as contas e vou encontrar outra coisa pra fazer.

Santa Michela merece coisa melhor do que um emprego de empregada doméstica, merece, sim. Mas esse emprego (na minha casa) dá a ela condições de ter tempo para a filhinha pequena, de trocar dias quando necessário, e de estar num ambiente tranquilo e "leve", como ela mesma diz. Então... Viva nós duas!

6 comentários:

Néia Lambert disse...

Oi Bel, confesso que fazia um tempinho que eu não passava por aqui. Adorei seu texto, essa forma com que falas das suas empregadas é muito "humano", pois vc conseguiu passar o que cada uma representou ou ainda representa na sua vida, com suas qualidades e defeitos. Hoje em dia ter alguém em casa e que a gente possa confiar está cada vez mais raro, por isso foi muito legal perceber que vc as valoriza muito bem.
Beijos

Palavras Vagabundas disse...

Bacana como você fala de suas empregadas. Eu sempre digo que devo ser uma ótma patroa e que tive a sorte de encontrar excelente empregadas, em 30 anos de dona-de-casa tive 8 empregadas, a que menos ficou, ficou dois anos e saiu por que casou e se mudou.
Boas lembranças!
abs
Jussara

Luciane disse...

ai que fofo, amei o jeito que vc fala das mulheres-que-trabalham-na sua-casa...

bjus

Jady disse...

Lembrei que Vera ficou toda sem jeito com meu abraço de despedida kkkkk Mas gostei dela de prima, acho que por saber que vc gostava dela também kkkk Santa Vera kkk

Carla Ceres disse...

Bel, adorei esse texto! É alegre, carinhoso, alto astral. Parece mesmo que os Céus te mandam um anjo sempre que você precisa. Beijos pra você e pras suas anjas-da-guarda!

Patricia Daltro disse...

Muito bonito seu post. Infelizmente, você falou uma verdade, tem muitas pessoas por ai que desmerecem as suas empregadas, tratando-as como lixos. Já presenciei cenas nojentas!
Fico feliz por sua Santa Michelia ter ultrapassado a condição de trabalhadora e ter se tornado uma amiga.