12.12.11

Capitães da Areia - o Filme

Não precisei nem ver o trailler pra desejar assistir. Mas se for lhe estimular… clica aqui.

Da obra de Jorge Amado e dirigido pela neta dele, Cecília, o filme é emocionante. Não posso dizer se é tão emocionante por ser de quem é e por eu ser quem sou… ou se emociona todo mundo. Assisti com Dinah, no Salvador Shopping, sala quase vazia numa tarde de meio-de-semana.

Com trilha sonora de Carlinhos Brown, a sensação é de que aquela cena TINHA que ter aquela música de fundo (ou de frente). “Você merece samba”, tema de Dalva, a prostituta decadente que recebe Gato, é um sambinha daqueles que conquista de primeira.

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Já fazia muito tempo que tinha lido o livro que deu origem ao filme (décadas, na verdade), então na minha mente estava somente a essência da história e como boa DDA que sou, tudo pareceu novidade.

A caracterização das personagens pra mim foi muito semelhante à descrição amadiana. Mesmo porque, do jeito que ele descreve, nos mínimos detalhes, fica fácil demais visualizar cenários, pessoas, e mesmo detalhes.

As cenas externas no mar são belíssimas, a viagem de saveiro, os mergulhos de Pedro Bala…

É claro que com atores adolescentes e inexperientes (todos foram escolhidos em Salvador – então o sotaque é real, e nenhum tinha qualquer experiência de atuação em palco, telinha ou telona) a gente percebe em alguns momentos um certo desconforto nas falas, como se fossem decoradas mesmo. Mas a beleza das cenas faz com que se releve isso.

As personagens são quase todas masculinas. Dalva, a prostituta e Dora , a única menina no bando, são as únicas mulheres em destaque. Mas bastam. Pois as mulheres de Amado são marcantes. Tão marcantes, que Dora foi tema de TCC e  faz parte da dissertação de mestrado da Luciana, e é claro que eu lembrei dela durante todo o filme, mas aquela menina agridoce sumiu da minha vida virtual,acho que está enrolada com a dissertação sobre as mulheres de Jorge.

Dora toma a posição de mãe que cuida e consola, de irmã que precisa ser protegida, de mulher pra ser amada… e até disputada, platonicamente entre Pedro Bala e o Professor. Mesmo sabendo o final da história, eu torcia secretamente pelo Professor. Afinal, “antiguidade é posto”, e foi ele quem encontrou Dora primeiro, quem se apaixonou primeiro, quem protegeu primeiro… mas não dava pra concorrer com a beleza e a imponência de Pedro Bala. Nem com arte e inteligência. Jorge foi cruel, nessa…

Uma coisa que me chamou muito a atenção foram as cenas de sexo. Sim, Jorge Amado não escreve sem sexo, mesmo quando um romance é sobre crianças de rua, abandonadas pela família e pequenos marginais. É claro que tinha um bordel (como não?) e iniciação de adolescentes na vida sexual. Mas Cecília foi tão feliz na direção, que essas cenas pra mim foram o ponto alto do filme.

Delicadas, suaves e nada explícitas. As cenas de Gato e Dalva, que em outras mãos poderiam ser exploradas à exaustão, ficavam somente na imaginação do espectador. E, mais lindo ainda, foi a cena da primeira vez de Dora e Pedro Bala. Com “stops” nos rostos com expressão de prazer e “voltas” em câmara lenta, não mostrou NADA do corpo das crianças, e ao mesmo tempo, disse tudo. Perfeito! Fora que a música… ah, sobre a música eu já falei!

Sobre a história, basta saber que é passada na década de 30 do século passado, mas é perfeitamente real nos dias de hoje. Crianças abandonadas, pequenos furtos, grandes golpes planejados, inocência perdida muito cedo, brigas de gangues, sincretismo religioso (os meninos tinham boas relações com o padre e com a mãe-de-santo), pequenos prazeres como o carrossel… tudo isso acontece ainda hoje.

Por tudo isso, me senti feliz por ter assistido essa obra de arte que foi Capitães de Areia.

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