21.3.12

O inusitado

Volta e meia recebo via e-mail ou vejo numa imagem no FB aquela tabela de diferentes maneiras de ver a mãe (ou o pai) de acordo com a idade do filho, sei que vocês sabem do que estou falando.
O fato é que eu não acompanho aquela listinha, sempre tive uma maneira muito realista de enxergar pai e mãe (especialmente depois que fui mãe), sabendo que são pessoas normais, não têm superpoderes nem são escória; vou bem pelo equilíbrio.

Não consigo, no entanto,  deixar de enxergar os defeitos dos meus pais, apesar de amá-los, e muito. Exemplo: Meu pai é machista. Não, ele é MACHISTA.  Eu não sou feminista, não brigo por direitos, quero somente que todos sejam naturalmente iguais e igualmente respeitados. Mas papi JAMAIS vai me enxergar como uma PESSOA, pelo simples fato de eu ser MULHER. Ele desejava um menino, seria André, mas nasci eu. E ele se apaixonou por mim, é fato. Mas eu serei sempre seu “Belisco”, sua princesinha, a peça frágil que ele sempre terá que proteger. Jamais uma mulher forte e guerreira, que apanha da vida mas bate também, que toma decisões às vezes acertadas, outras nem tanto. (Quando acerto, a responsabilidade é sempre “de Deus”.)

Minha opinião pode até ser ouvida, longinquamente considerada, mas se for colocada na balança com um homem qualquer que ele minimamente respeite… o tal homem ganha disparado. Conselho? Eu JAMAIS serei capaz de dar. Serei sempre a irresponsável, imatura, infantil… coisa que não aconteceria com um filho homem. No menino, desde pequeno, ele estaria enxergando seu sucessor (sei lá em que), a continuação de si mesmo.

Acho que já comentei aqui sobre a resistência física dele. Nunca ouvi meu pai reclamar de cansaço. Nem de dizer que quer fazer xixi. Claro que ele se cansa, e faz xixi, mas admitir isso seria “admitir fraquezas”, o que, diante da filhA, seria inimaginável.

Mas hoje aconteceu algo inusitado. Ele bateu à minha porta, no começo da tarde, e ficou vermelho, como fica quando está fazendo “uma travessura”, gaguejou, e, cheio de gestos, perguntou: “Você tem aí cinquenta, pra me emprestar?”

Não sei quem ficou mais sem ação, se ele ou eu. E, afortunadamente, EU TINHA!!! Não é usual ter dinheiro na bolsa, sou uma defensora ativa do dinheiro de plástico, mas recebi um pagamento e não tive saco tempo de ir ao banco depositar. E assim, pude, pela primeira vez na vida, emprestar 50 reais a meu pai!!! Esse acontecimento inusitado não foi somente prático. Foi densamente marcante. Ele, do alto do seu pedestal, bateu à minha porta pra pedir dinheiro. Que vergonha!!! Que coisa feia!!! E precisou se justificar, dizendo que não podia sair pra sacar, porque tinha alguém fazendo nãoseioquê no portão da garagem, bla bla bla whiskas sachet.

Tadinho… é tão mais fácil viver sem rótulos e sem esse peso todo… Mas aos 88 anos, sei que é difícil mudar.

Um comentário:

Jullyane Teixeira disse...

Não precisa eu dizer que sou feminista, pró-ativa dos direitos coletivos, militante e tudo mais, vc já sabe, rs, e entendo como ninguém o que vc passa. Meu pai não é assim, até porque é de uma geração, felizmente, mais esclarecida, mas ainda assim convivemos diariamente com todos os tipos de preconceito, seja machismo, racismo, homofobia, entra outros.

E com essas pequenas atitudes diárias também contribuímos para a mudança - lenta - que queremos promover no mundo.

Bjo bjo, Bel :*