6.4.12

Caminhos e descaminhos – Parte 1

Ontem li os posts do Ernani e da Inaie, que, de maneiras diferentes me tocaram pra  falar um pouco da minha história, que pouca gente aqui conhece com detalhes. Na verdade, me tocaram pra pensar sobre minha história.

Comentei no blog do Ernani que tive vontade de contar tudo que já fiz na vida até chegar onde me encontro hoje, pensando na vida profissional, mas na verdade as escolhas que fiz durante a vida transcendem a profissão – ou as profissões – que já tive.

Minha filha diz que eu tenho “alma de professora”… e de um jeito ou de outro, isso é verdade. Comecei a “dar banca” quando estava na 7a. série, para alunos de 5a. e 6a, na intenção de ter algum dinheiro pra financiar filmes e revelações fotográficas. Fazia com prazer pelo que fazia, mas também pelo prazer que isso me permitiria em seguida.

Quando terminei o 2º grau, sabia exatamente o que queria: Estudar MÚSICA. E fui! 5 anos vivendo, comendo e respirando música. E dando aula de Musicalização Infantil numa escola super legal, que me fez desejar ter uma daquele jeito, “quando eu crescesse”.  Mas no último ano, casei… e é aí que digo que as escolhas vão além das profissionais.

Não consegui tomar remédio pra não engravidar, meu organismo rejeitou o DIU, e o ex-marido não gostava de camisinha. Resultado: Resolvi engravidar logo e “acabar com o assunto”. Mas nos exames preliminares ficou constatado que eu não tinha hormônios para engravidar (todo o sacrifício para evitar filho tinha sido à toa…) e a essa altura eu já QUERIA engravidar mesmo. E tomei estimulantes de ovulação, o que me fez engravidar, sim, e de gêmeos! Um dos dois “escapuliu” no quarto mês, e Line chegou quando eu tinha 23 anos e a essa altura, trabalhava feito uma louca, regendo corais, dando aulas de piano, flauta, teoria musical, musicalização infantil, canto, regência…  ufa, cansei só de pensar! Mas era tudo informalmente. Minha escola de música ainda não tinha virado realidade.

Três anos depois de Line, nasceu Abelzinho, numa outra gravidez complicada, parto prematuro e complicado, e minha “rotina” ficou diferente, agora era a carreira, os dois filhotes e o pai deles teve uma hérnia de disco e precisou operar, ficou quase um ano sem trabalhar. Toda a música que eu fazia não era suficiente pra sustentar a casa, a vida ficou braba.

O jeito foi fazer da casa a escola de música que eu tanto sonhava. Dormíamos os quatro no mesmo quarto, pra que o resto da casa virasse o Centro de Musicalização de Ilhéus, e o relógio era meu controle minuto a minuto. E apesar dos dias todos serem diferentes, das apresentações públicas em teatro, escolas, igrejas, viagens com corais e eu ver meus alunos progredirem… sentia que minha vida era uma rotina que me cansava e eu não  sabia como resolver isso. Eu inventava musicais, recitais, serenatas de natal na frente de hospitais, na cadeia, no calçadão… fazia de tudo pra viver produzindo de mil maneiras diferentes. 

Mas nossa cidade tão linda não era muito boa pra aulas de música, e alguns anos depois tive que fechar a escola de música, que consumia meu tempo mas não rendia muito em termos financeiros. E com as crianças precisando ir pra escola, o jeito foi me oferecer pra dar aulas (de novo!) por lá: música, informática, inglês… correr de trabalho eu não ia.

E convivendo com escola e crianças, resovemos, o ex-marido e eu, fabricar brinquedos educativos de madeira. Então lá fui eu lixar, serrar, pintar os brinquedos que eu mesma inventava (não patenteei nada, uma boba!), e vender na beira da estrada, no caminho dos turistas que iam pra praia no final de semana. (Quando chovia, já era, não se vendia nada!)

O tempo passou, e cobrou a falta de cuidado que tive com o corpo. em 1997 minha coluna gritou, e foi a minha vez de cair na cirurgia, passando um ano antes, preparando com fisioterapia e RPG os músculos pra operar, e outro ano depois pra me recuperar de uma cirurgia que tirou a pontinha da 7a. vértebra cervical que estava pressionando os nervos e vasos dos braços. Visualizem a situação: sem poder mexer os braços, cheia de dor, dor insuportável 24h por dia, e tendo que parar de fazer a única coisa que eu sabia e para a qual fui treinada. Ouvi do Dr. Ortopedista que teria que mudar de profissão, pois mesmo depois da cirurgia, a única coisa garantida é que eu ficaria sem dor. Sensibilidade e movimentos não eram garantidos.

Nem preciso dizer que ficar sem trabalhar (e automaticamente sem dinheiro) joga qualquer um num poço fundo de depressão, né? Só que além disso, na tomografia que fiz da coluna cervical, o médico visualizou um nódulo na tireóide.  Deixei pra pensar nisso “depois”, pois ele não me fazia sentir nada, eram as dores nos braços que incomodavam. Resumindo a história, operei, fiquei com movimentos perfeitos e sem sequelas, somente perdi a coordenação motora fina e de vez em qaundo tenho uns espasmos no braço direito, que fazem com que ele não me dê segurança de segurar por muito tempo algo precioso como um vaso de cristal… ou um bebê!

Aí veio a hora de investigar o tal nódulo na tireóide, e em 13 de abril de 2000 fiz uma tireoidectomia total, que mais uma vez me jogou na cama até se estabilizarem os níveis hormonais e eu conseguir voltar a viver. Nesse meio tempo, precisei desenvolver a paciência, e a mulher elétrica que fazia 1488  coisas ao mesmo tempo agora tinha que ficar paradona, deitada, sem força nem ânimo pra nada. Deprê na área novamente, claro. Mas o poço sempre tem um fundo, e quando a gente bate o pé nele consegue subir!

Aprendi a bordar, e já que tinha tempo sobrando, cuidei de fazer o avesso perfeito no ponto cruz, linhas entrecruzadas de vagonite, ponto ajour, bainha aberta… e dar aulas de tudo isso! (A tal alma de professora…) A comunidade onde a minha igreja estava inserida foi o campo onde exercitei mais uma vez meu talento de ensinar. Mas no pacote de “habilidade com as mãos” vieram outras possibilidades de ganhar dinheiro: Decoração em EVA, lembrancinhas de bisquit, bijouterias, e nem lembro mais o que. Lá pelos idos de 2002-2003 minha casa era um atelier, mal sobrava espaço para as pessoas que nela moravam. E Line foi minha “sócia” num  empreendimento de “disseminação de vírus” (difícil explicar, mas eram bichinhos feitos de bisquit e colocados em tubos de ensaio, com mensagens interessantes que sempre começavam com “Você foi contaminado com o vírus da…” Amizade, Felicidade, do Amor, do Romance, e por aí ia. Deu um dinheirinho bom, viu?

Aí a coisa mudou, deu uma guinada grande… mas vou deixar para o próximo post, este já passou do limite!

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