21.4.13

Caderno Afegão

Ao contrário de Lile, demorei um bocado para terminar de ler “Caderno Afegão”, da jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho (Rio de Janeiro: tinta Negra Bazar Editorial, 2012). Credito a demora a, além das minhas múltiplas e diversas atividades, à leitura “de trabalho” (veja a listinha aqui) que já cresceu, depois que foi iniciada.
Mas o fato é que finalmente hoje terminei de lê-lo. Lile havia me perguntado o que eu estava achando, e não respondi, porque ainda não havia concluído a leitura. Pois bem, agora vão minhas considerações.
1. Apesar de editado no Brasil, o livro é escrito em português de Portugal, o que pode parecer quase nada, mas, de fato dá a sensação de que precisava mesmo de uma tradução para o Português-Br. Isso cansa um pouco a mente, que precisa ficar imaginando (ou tentando lembrar) o que significam determinadas palavras, e causa um estranhamento na construção das frases. Mas no geral não prejudica o entendimento.
2. Tem mesmo o tom de um caderno de anotações escrito em tempo real, com pouca ou nenhuma edição. Algumas coisas mostram a pessoa por trás da jornalista: observadora, sensível, com necessidades comuns a qualquer mulher… decidida, insistente, e, sobretudo corajosa. Por um mês esteve no Afeganistão como correspondente do jornal Público de Lisboa,  e relata seu dia-a-dia viajando por diversas cidades do país, e suas impressões especialmente sobre o povo afegão, seus costumes, suas necessidades, seus sonhos… sua vida.
3. O fato de ter o tom de um caderno de anotações deixa o livro meio solto, como um diário em que não se escreve todos os dias, mas ao mesmo tempolibera a imaginação do leitor para construir as imagens que ela descreve de maneira detalhada, mas com frases curtas. Relata desde refeições rotineiras até sensações enquanto espera um vôo que não sai, ou a tensão de passar pelos checkpoints talibans.
4. Alexandra se viu, na maioria do tempo, como “a única mulher” nos vários lugares em que passou. Procurou se vestir de maneira que não ofendesse a cultura local, mas sem ferir também sua própria liberdade.  A parte que mais gostei do livro foram as conversas com as mulheres afegãs com quem ela se encontrou. Na maioria das vezes, foi um único encontro, e é incrível como em pouco tempo ela conseguiu conquistar a confiança de mulheres que a recebiam em sua casa, abrindo não somente a casa, mas o coração a uma ´jornalista estrangeira, absolutamente estranha a elas.
5. O contato com os poderosos também é algo que impressiona. Alexandra é um exemplo de profissional, que com a cara e a coragem enfrentou um campo de guerra e conseguiu uma visão bem mais profunda do que normalmenteé permitido a jornalistas estrangeiros em situação de guerra.
6. Foi duro ler sobre as necessidades mínimas não supridas por um povo que cultiva rosas por toda a parte, como seu maior tesouro. Doloroso ler sobre obras de arte e livros destruídos em massa pelos talibans. Revoltante ver a maneira como as mulheres são tratadas no geral, mas lava a alma ler histórias como a da família de Shaharzad, onde todas as filhas foram mandadas para estudar fora, e voltaram, para ensinar outras muheres afegãs. Shaharzad quer concorrer ao parlamento. E eu votaria nela.
7. Drogas são um problema maior do que se imagina, no Afeganistão. Maridos viciados dependem do trabalho de mulheres que, por lei, não podem trabalhar. Como sobreviver assim? As ONGs sérias que intervêm dão algum auxílio, mas é insuficiente. Mulheres morrem porque não podem ser levadas a médicos homens, e como mulheres não estudam, não existem médicas mulheres, a não ser nos serviços estrangeiros. Ninguém tem registro de nascimento, as idades não são precisas…
8. As ditaduras mudam de nomes, mas não deixam de ser ditaduras. Gengis Khan, Soviéticos, Mujahedin, Taliban…
9. Ela fez uma grande e linda entrevista com o Livreiro de Cabul, personagem do livro de mesmo nome, que disse não ter gostado do resultado final do livro. Essa entrevista, transcrita de maneira quase textual, dá as maiores informações sobre a política e a história afegã, pela boca de alguém que resistiu a todas as ditaduras.
10. As dificuldades com o calor, mosquitos, internet lenta, burocracia, preconceito com mulheres, estradas ruins, carros antigos que quebram a todo momento, carona (boléia, em português-pt) em avião com mafiosos armados… nada disso fez Alexandra desistir.
Apesar de sentir algumas lacunas e de informações que serverm apenas para situar os sentimentos da autora, é um livro incrível. Gostaria de ler as matérias oficiais que ela escreveu na época (2008). Mas, de toda forma, não é um livro, como eu pensei, a ser recomendado para meus alunos, futuros jornalistas. É necessário ter mais maturidade para compreendê-lo.
Obrigada, Lile, pelo empréstimo. Ele já vai voltar, viu? Beijo!

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