2.7.13

Sobre a “importação” de médicos cubanos e otras cositas mas

AVISO: Post longo, duro e que exige reflexão. Se não quiser ler, o xis vermelho está logo ali no canto superior direito.

Em pronunciamento à nação no dia 21 de junho, a PresidentA Dilma Rousseff acenou com uma solução para o “problema da saúde” no Brasil: “trazer, de imediato, milhares de médicos do exterior para ampliar o Sistema Único de Saúde, o SUS” . Não assisti o pronunciamento ao vivo, e fui saber dele pelos comentários no Facebook.

 

Confesso que não dei muita importância aos comentários, até que li o  Post da Dra. Juliana Mynssen, que inexplicavelmente não encontrei agora no Facebook, depois de milhares de pessoas curtirem e compartilharem, inclusive eu. [#TeoriaDaConspiração alert]

"O dia em que a Presidenta Dilma em 10 minutos cuspiu no rosto de 370.000 médicos brasileiros."
..." Há alguns meses eu fiz um plantão que chorei. Não contei à ninguém (é nada fácil compartilhar isso numa mídia social). Eu, cirurgiã-geral, "do trauma", médica "chatinha", preceptora "bruxa", que carrego no carro o manual da equipe militar cirúrgica americana que atendia no Afeganistão, chorei.
Na frente da sala da sutura tinha um paciente idoso internado. Numa cadeira. Com o soro pendurado na parede num prego similar aos que prendemos plantas (diga-se: samambaias). Ao seu lado, seu filho. Bem vestido. Com fala pausada, calmo e educado. Como eu. Como você. Como nós. Perguntava pela possibilidade de internação do seu pai numa maca, que estava há mais de um dia na cadeira. Ia desmaiar. Esperou, esperou, e toda vez que abria a portinha da sutura ele estava lá. Esperando. Como eu. Como você. Como nós. Teve um momento que ele desmoronou. Se ajoelhou no chão, começou a chorar, olhou para mim e disse "não é para mim, é para o meu pai, uma maca". Como eu faria. Como você. Como nós.
Pensei "meudeusdocéu, com todos que passam aqui, justo eu... Nãoooo..... Porque se chorar eu choro, se falar do seu pai eu choro, se me der um desafio vou brigar com 5 até tirá-lo daqui".
E saí, chorei, voltei, briguei e o coloquei numa maca retirada da ala feminina.
Já levei meu pai para fazer exame no meu HU. O endoscopista quando soube que era meu pai, disse "por que não me falou, levava no privado, Juliana!" Não precisamos, acredito nas pessoas que trabalham comigo. Que me ensinaram e ainda ensinam. Confio. Meu irmão precisou e o levei lá. Todos os nossos médicos são de hospitais públicos que conhecemos, e, se não os usamos mais, é porque as instituições públicas carecem. Carecem e padecem de leitos, aparelhos, materiais e medicamentos.
Uma vez fiz um risco cirúrgico e colhi sangue no meu hospital universitário. No consultório de um professor ele me pergunta: "e você confia?".
"Se confio para os meus pacientes tenho que confiar para mim."
Eu pratico a medicina. Ela pisa em mim alguns dias, me machuca, tira o sono, dá rugas, lágrimas, mas eu ainda acredito na medicina. Me faz melhor. Aprendo, cresço, me torna humana. Se tenho dívidas, pago-as assim. Faço porque acredito.
Nesses últimos dias de protestos nas ruas e nas mídias brigamos por um país melhor. Menos corrupto. Transparente. Menos populista. Com mais qualidade. Com mais macas. Com hospitais melhores, mais equipamentos e que não faltem medicamentos. Um SUS melhor.
Briguei pelo filho do paciente ajoelhado. Por todos os meus pacientes. Por mim. Por você. Por nós. O SUS é nosso.
Não tenho palavras para descrever o que penso da "Presidenta" Dilma. (Uma figura que se proclama "a presidenta" já não merece minha atenção).
Mas hoje, por mim, por você, pelo meu paciente na cadeira, eu a ouvi.
A ouvi dizendo que escutou "o povo democrático brasileiro". Que escutou que queremos educação, saúde e segurança de qualidades. "Qualidade"... Ela disse.
E disse que importará médicos para melhorar a saúde do Brasil....
Para melhorar a qualidade....?
Sra "presidenta", eu sou uma médica de qualidade. Meus pais são médicos de qualidade. Meus professores são médicos de qualidade. Meus amigos de faculdade. Meus colegas de plantão. O médico brasileiro é de qualidade.
Os seus hospitais é que não são. O seu SUS é que não tem qualidade. O seu governo é que não tem qualidade.
O dia em que a Sra "presidenta" abrir uma ficha numa UPA, for internada num Hospital Estadual, pegar um remédio na fila do SUS e falar que isso é de qualidade, aí conversaremos.
Não cuspa na minha cara, não pise no meu diploma. Não me culpe da sua incompetência.
Somos quase 400mil, não nos ofenda. Estou amanhã de plantão, abra uma ficha, eu te atendo. Não demora, não. Não faltam médicos, mas não garanto que tenha onde sentar. Afinal, a cadeira é prioridade dos internados.
Hoje, eu chorei de novo."

Foto: Curta nossa página: Movimento Contra Corrupção

Fonte: Facebook do Movimento contra a Corrupção

Pensei em escrever aqui sobre o assunto, mas como estava fixada no meu próprio umbigo e com problemas próprios a serem resolvidos, fui deixando passar. E nesse meio tempo, li – e compartilhei – o depoimento da Dra. Lindiara Santana Santos, Médica da Família em Palmeira – PR:

SOLUÇÃO DA PRESIDENTE DILMA PARA O PROBLEMA DE SAÚDE NO BRASIL
Sou médica há 21 anos. Estudei em Recife, na Faculdade de Ciências Médicas (Universidade de Pernambuco) de 1986 a 1992. Em minha época nós não tínhamos todos os recursos diagnósticos de hoje, mas aprendemos a exercer a medicina do olho no olho, do tratamento do ser humano como um todo. Até hoje, na fachada da Faculdade está a frase que amo repetir e viver – “nós curamos poucas vezes, aliviamos muitas vezes, mas temos que consolar todas as vezes”.
Desde minha época de aluna, o problema estrutural da saúde era gritante. E pouca coisa, infelizmente, mudou. No Hospital da Restauração, maior hospital de emergência da região, quando chegavam pacientes muito graves, os médicos tinham que escolher quem iria ou não sobreviver, pois os leitos de UTI eram ínfimos. Lembro como fiquei chocada quando ouvi e vi isso pela primeira vez.
Meu primeiro emprego foi em uma cidade do interior de Goiás, chamada Sanclerlândia, onde minhas primeiras experiências na medicina e na vida foram fundamentais. Sempre trabalhei com pessoas carentes, no interior das cidades onde vivi, e até em assentamentos de sem—terra. Posso dizer que, como inúmeros outros colegas, sou quase uma heroína, trabalhando com os poucos recursos que disponho nestes anos todos. Já fui prefeita em Bocaíúva do Sul e atualmente trabalho em Palmeira e São João do Triunfo, cidades do interior do Paraná, como médica plantonista e médica da Família (em Palmeira). Portanto, acredito que tenho autoridade e conhecimento para falar sobre o assunto.
O governo federal municipalizou a saúde básica mas não municipalizou os recursos financeiros necessários para tal atendimento. Faltam leitos nos hospitais, medicamentos das unidades de saúde e maior agilidade nos exames e encaminhamentos. O governo municipal é o mais penalizado, afinal de contas é mais fácil criticar o prefeito que é nosso vizinho, (já fui prefeita e sei bem como funciona) que o governador e a presidente, que nunca vemos ou veremos. Temos ambulâncias sucateadas e os carros que servem à saúde, apesar de estarem sempre nas diversas rodovias levando e trazendo pacientes, estão em estado precário.
Na emergência, quando precisamos da Central de Leitos para encaminharmos um paciente mais grave, temos que rogar a Deus e usar de toda nossa eloquência e simpatia pra tentar convencer o médico no outro lado da linha de que estamos encaminhando alguém porque realmente não temos recursos para o atendimento em nosso município. A conquista da vaga é comemorada quase como um gol do Brasil na Copa!!! Lamentável...
Nossa equipe de enfermagem, sem a qual não podemos fazer nada, é desvalorizada e desestimulada pelos baixos salários, inúmeras críticas e intensa sobrecarga de trabalho.
Não quero generalizar, mas estudar medicina hoje é coisa pra “filhinhos de papai”. As vagas são mínimas e só quem faz cursinhos em escolas caras consegue passa nos vestibulares pelo Brasil afora. Sei de alunos de medicina que desrespeitam o professor e seus colegas de forma nojenta, arvorando-se do direito de que “estão pagando” e o professor, médico experiente, tem que ficar calado ou.... Não estou inventando isso. Ouvi este relato de um colega meu. Será que esses estudantes vão sair de suas casas luxuosas e ingressar no interior deste nosso “Brasilzão”, tocando e convivendo com pessoas carentes de tudo, principalmente de respeito e carinho?
Vivemos num tempo em que nossa experiência profissional muitas vezes é criticada e substituída por inúmeros exames complementares, muitas vezes “exigidos” pelo próprio paciente, que tem no Dr. Google um grande aliado.
Depois de tudo isso que falei será possível acreditar que a vinda de médicos de outros países, cuja experiência e capacidade podem ser muitas vezes questionadas, irá resolver a situação de saúde no nosso Brasil? Por falar nisso, lembrei de um fato. Tive um namorado que viajou à Cuba em 2010. Fiz uma caixinha com vários medicamentos básicos, porque sabia das dificuldades de lá e achei melhor que ele os levasse por prevenção. Ele me contou que uma médica cubana ficou simplesmente encantada quando viu um envelope de paracetamol, medicamento tão simples pra nós. Era como se tivesse visto ouro!!! E explicou a precariedade do atendimento, da formação médica e da saúde de Cuba.
Não precisamos de médicos estrangeiros!!!! A meu ver precisamos de:
1 - EDUCAÇÃO BÁSICA DE QUALIDADE – para que todas as classes sociais possam ter acesso ao ensino da medicina e nosso jovens possam voltar, completamente bem formados, ao seu rincão de origem e ajudarem seus irmãos sofridos.
2 - FORMAÇÃO MÉDICA DE QUALIDADE – em hospitais e unidades de saúde bem equipados, com professores respeitados e onde a medicina humana e humanizada, a anamnese e o exame físico – possíveis de realizar em qualquer lugar - sejam priorizados, ao invés da imensa bateria de exames complementares.
3 - RECURSOS FINANCEIROS PARA OS MUNICÍPIOS – repensar o Pacto Federativo, luta de anos travada pelos prefeitos e vereadores, no sentido de que maior aporte financeiro seja destinado àqueles que têm a maior responsabilidade!!!
4 - VALORIZAÇÃO DE TODOS OS PROFISSIONAIS DE SAÚDE – através de planos de cargos e salários que prestigiem a qualificação continuada e a qualidade do trabalho humano com o paciente.
5 - IMEDIATA REESTRUTURAÇÃO DE TODAS AS UNIDADES DE SAÚDE DO PAÍS. Unidades básicas de saúde, em todo o país, com padrão A de construção e funcionamento. Hospitais com maior número de leitos, arquitetonicamente bem conceituados, completamente equipados, com instrumental e medicamentos, onde a equipe de saúde se sinta tranquila para exercer o seu papel, pois conta com todo o suporte necessário. Os que me conhecem sabem que amo futebol, mas sei que muitos dos recursos que estão e estarão sendo usados para a Copa poderiam ser direcionados para este ponto – INFRA-ESTRUTURA DA SAÚDE.
Infelizmente, estou ficando cansada....
São décadas de luta na área da saúde e não tenho visto real interesse por parte do governo, principalmente estadual e federal, de que as coisas mudem. Só ouço antigos chavões e promessas, principalmente em época eleitoral, e pouco de concreto se faz.
É meu desabafo. Não sei se é falta de fé ou de esperança, mas estou cansada... “

E hoje, enquanto corrigia uma pilha de provas de alunos do ensino superior – e me desesperava ao pensar que sou uma professora de merda, que apesar de preparar aulas com recursos audiovisuais, prover os alunos com textos pertinentes ao assunto desenvolvido em aula, expor os assuntos quantas vezes forem necessárias até que eles afirmem que não existem dúvidas, não consigo ter, nas avaliações escritas (provas) exigidas pela Instituição de Ensino Superior (IES) respostas minimamente aceitáveis – li o depoimento da Dra. Thelma Focchi, Oftalmologista  na grande São Paulo e minha prima:

“Postei abaixo umas fotos da minha sala no CSII , de Itaquaquecetuba, tiradas a semana passada, qdo cheguei pra trabalhar. O Fantástico ontem mostrou um médico em uma situação bastante ruim, a Vejinha São Paulo fala da cura gay e não é nada elogiosa aos evangélicos.. Como os dois rótulos são aplicáveis à minha pessoa, tenho me sentido meio desconfortável em ambos... Nem todos os médicos são gananciosos desonestos e nem todos os evangélicos preconceituosos irredutíveis. Aliás, Jesus foi duramente criticado pelo "establishment" por jantar com ladrões e ser amigo de prostitutas. Por que será que é tão difícil enxergar no outro , o próximo que devemos amar como a nós mesmos?? Por que como Narciso, "achamos feio o que não é espelho"???
As questões levantadas pelos protestos dos últimos dias precisam ser levadas adiante, com objetividade, seriedade. Não é só uma questão de derrubar Felicianos e trazer médicos cubanos! Nem tampouco de se fazer plebiscitos absurdos. É de cuidar do nosso país, torná-lo um país digno. Temos definitivamente governantes demais e governo de menos. Leis demais que nem são cumpridas nem regulamentadas . Temos educação de menos, saúde de menos, transporte de menos, segurança de menos. É preciso que priorizemos o essencial, que mostremos por governo o que é essencial , por que ele certamente não é capaz de ver ou... está de novo e ainda, fingindo que o buraco é outro...
Faltam médicos??? Faltam sim...mas falta estrutura, limpeza, papel higiênico... só não faltam pacientes.”

Não sou médica. Mas sou profissional da Educação, o que me coloca numa posição equivalente à dos médicos: Exerço um sacerdócio. Não foi anunciada a ‘importação” de professores, mas por ter essa ligação sacerdotal em comum, me doí pelos médicos. Tomei suas dores por ter, já há bastante tempo, muitos problemas de saúde, e, apesar de não depender do SUS (tenho plano de assistência médica privada), dependo de que eles encarem a medicina como algo maior do que simplesmente uma profissão. Fui atendida por um obstetra durante minha segunda gravidez, sem que ele recebesse NADA do plano de saúde, por conta de uma briga burocrática lá deles, mas o Dr. José Slaib (conto o milagre E o Santo) não me abandonou numa gravidez de risco, quando entrei em trabalho de parto aos cinco meses e pari de emergência antes do sétimo mês. Igualmente, minha acupunturista, Dra. Otília Moraes, não suspende meu atendimento, quando o plano diz que “acabaram as minhas sessões deste ano”. Nem teria espaço para falar da Dra. Auristela Montenegro, chego a me sentir culpada do tanto de trabalho que dou a ela, pelo preço ínfimo de uma consulta pelo plano. Tenho saudades da Dra. Ana Lúcia Sampaio, que me acolheu quando foi descoberto um nódulo em minha tireoide, e só deixou de me atender quando ela própria foi vítima de um câncer devastador e fatal. E outros tantos durante meu quase meio século de existência.

As soluções colocadas pela Dra. Lindiara, (em negrito, acima) parecem, a meus olhos de leiga mas de cidadã brasileira, tão simples que chega a ser absurdo compará-las às da PresidentA. E fico aqui, me perguntando,  se a reunião que ela teve ontem com seu ministério, não foi meio que assim… Reunião de emergência por Porta dos Fundos (Não consegui incorporar).

Estou triste, muito triste. Mas ainda me resta esperança. Hoje estava dizendo a meu pai (que fará noventa anos em agosto), minha posição quanto aos protestos, e, surpreendentemente, ele concordou. Disse a ele que os protestos precisam acontecer, e precisam INCOMODAR. Não com destruição, queima de ônibus e depredação do patrimônio, seja público ou privado. Acho que parar o trânsito, parar o país, é a melhor maneira de incomodar. Fui pra rua no primeiro dia de manifestação aqui em Ilhéus, e não gostei. Senti que foi mais FESTA do que MANIFESTAÇÃO. Mas ainda assim, contabilizo como positivo.

Os protestos não podem parar. E precisam ser feitos de alma limpa e coração vibrando pelo país. Não quero sair daqui. Quero poder  protestar e levar meus filhos, e ver crianças com seus pais, como o Dani, filho da Patrícia e do Marcelo Daltro, Protestando, no Rio de Janeiro, mandando a mensagem implícita: “Se eu trago meu filho, é porque eu acredito que estou seguro, é porque eu acredito que estou ensinando a ele uma enorme lição de cidadania. E estou de peito aberto, não vim pra quebrar ou destruir nada, vim pra consertar o país!”

E, finalizo voltando pro meu habitat profissional, a sala de aula. Lá, eu também protesto. Protesto a favor ensino responsável e da aprendizagem consciente. Imploro que meus alunos leiam, leiam, leiam e leiam. E escrevam. Ou pelo menos tentem. Mas é difícil. Eles não foram acostumados a isso, e um livro de 121 páginas é um absurdo. Mas pior do que não conseguir ler, é ler e não compreender, seja o texto dado ou o enunciado da questão na prova. Está difícil, difícil demais. Elaborar as provas está sendo complicado, porque desejo ser clara e praticamente “entrego” a prova… mas eles estão tão distantes, (não sei em que mundo) e me jogam no chão na hora da correção. Estou cansada. Tão cansada que perdi o sono e estou aqui desde as 2 da madrugada, desabafando (são 3:49h). Mas minha fé, minha força interior e meus sonhos são maiores que meu cansaço. Sigo acreditando na Educação como solução para os problemas do país. Mas estou pensando seriamente em deixar o Ensino Superior e ir para o Fundamental 2. Acho que lá serei mais útil.

 

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PS- Os depoimentos postados no Facebook estão copiados na íntegra, pois encontrá-los depois é um processo tão complicado que não tenho outra escolha.

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