21.6.14

“Jejum de informação”

Depois de um longo e tenebroso inverno (ou verão-outono, como queiram), eis que paro para escrever sobre algo que me deixou sem palavras ontem. Ironia, não é? Fiquei sem palavras, e hoje elas brotam pelos dedos, junto com a revolta que senti.

Ontem me atrasei para a sessão de acupuntura, por motivos alheios à minha vontade (a.k.a. trânsito pesado na estrada) e fiquei monitorando, pelo telefone, como estava a situeichan no consultório, se ainda daria pra eu ser atendida, e tal. A previsão era de que SE eu conseguisse chegar antes das 11, daria tempo. E com uma betoneira lerda na minha frente, sem conseguir ultrapassá-la por conta dos poucos pontos de ultrapassagem na Rodovia Jorge Amado, a aflição foi grande. (No fim das contas, consegui chegar às 10:55h).

Mas havia um problema: eu estava com um horário no iPhone, outro no relógio do carro e outro no celular-do-ladrão. O que aumentava ainda mais a agonia da dúvida de “vou chegar antes das 11h”.

Após a sessão, já relaxada, na viagem de volta resolvi ligar o rádio do carro para ter certeza da hora e verificar se algum dos meus aparelhos marcava a hora certa. A primeira estação que foi encontrada pelo dial automático era uma daquelas tipicamente ditas “gospel”, e das quais eu fujo instintivamente.  A outra estava tocando uma seleção de forró-baixo-nível, e achei que não valia a pena esperar pela hora  tratando meu ouvido como penico. Na terceira, deixei rolar, porque ouvi o que me deixou sem palavras.

Era uma convocação feita por um “pastor”, para um “jejum de informação”. A proposta era passar 40 dias (QUARENTA!!!!) sem ver TV, entrar na internet, ler jornais ou revistas que não fossem ligados ao “reino de Deus”. Segundo ele, “não sujar a mente com toda essa informação mundana que é oferecida como banquete pelo próprio diabo”. Isto posto, ele já se oferece para orar pelas pessoas que se decidiram pelo jejum, e iriam começar NAQUELE MOMENTO. Deixa a entender que outras já haviam começado antes, pois falou em “juntar-se ao grupo de filhos de Deus que já entrou nessa batalha contra o mal da informação”.  Quando a pessoa começou a “orar” eu novamente toquei no botão de busca automática por uma nova estação, e foi aí que me faltaram as palavras. Mas, thanks God, não me faltou o pensamento.

Digo que “me faltaram palavras”, porque as únicas que me vieram à boca não eram dignas de ser pronunciadas. Senti vontade de xingar, e xingar muito essa pessoa que se traveste de líder cristão, mas de fato é um manipulador sem limites. A mensagem que recebi, mas que os fiéis que o acompanham não recebem, foi: “não leia nada, não ouça nada, não assista nada que não seja o que EU lhe apresentar”. Lavagem cerebral na cara dura. E quantas pessoas estavam ali, coitadas, ouvindo o infeliz falar, e dedicando “a Deus” seu jejum de informação mundana???!!!

Na contra mão dessa via, o ministro evangélico a quem respeito e admiro, não somente por seu posicionamento teológico, mas lógico e ético, Ed René Kiwitz, publicou em sua página no facebook a seguinte “convocação”:

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O Pr. Ed René é pastor da Igreja Batista da Água Branca – IBAB, em São Paulo, e mantém um ministério altamente “antenado” com a contemporaneidade da comunicação. O site da IBAB é a igreja virtual, vale a visita. As mensagens dominicais estão lá todas as terças, pontualmente às 11h da manhã, disponíveis para assistir em vídeo ou para download do áudio, que é o que eu faço, para ouvir nas minhas idas e vindas pro trabalho, no som do carro.

Nessa sua proposta de “Conversas Pastorais”, fica claro o quanto é necessária, sim, a informação “mundana”. “A Bíblia numa das mãos e o jornal do dia na outra.”.

Admiro o Ed porque ele não se coloca como dono da verdade nem aquele que não erra, não peca, ou como juiz e a palmatória do mundo. Identifico-me com ele nas minhas falhas e no meu desejo de ser uma cristã digna do Senhor a quem sirvo, APESAR de ser como sou. Aproveito para colocar aqui o link de um post antigo, com minha profissão de fé, copiada da querida Fabi Mesquita.

E é isso. Sem querer converter ninguém, mas querendo mostrar quem sou e como vivo, no que creio e em que isso influi na minha vida.

4 comentários:

Anônimo disse...

“O segundo risco é perdermos a noção do razoável e fornecermos respostas além dos limites aceitáveis pela Bíblia e pela tradição cristã.”
...É Ed René Kivitz tentando acomodar e dar conforto a todos numa Cama de Procusto.
Humanitário, Kivitz , antes de cortar o infeliz, aplica um anestésico...

Tucha disse...

Concordo com vc, o cristão não pode "ausentar-se" do "mundo", tem que está fazendo constantemente analise e reflexão dos acontecimentos.

Carla Ceres disse...

O engraçado, Bel, é que o "jejum de informação" não tem finalidade somente religiosa, mas pretende prejudicar a Globo durante a Copa. Não sou religiosa nem defensora de nenhuma emissora de TV, mas acho desrespeitoso usar Deus como falso pretexto para manipular o rebanho, numa guerra comercial. Beijos!

Anônimo disse...

Tenho que reconhecer: Quem ouviu a palavra do “pastor” foi poupado das Sete Pragas do Mineirão.