23.7.16

Justo a mim me coube ser eu




Lembro bem quando conheci a Karina. Quando e como.

Rolou por aí um texto sobre a Eloá, aquela menina que foi refém de um sequestrador, ex-namorado, lembram do fato? A mídia sufocou a gente com uma cobertura irritante em tempo real. Recebi por e-mail um texto que dizia exatamente o que eu pensava, e postei aqui no blog. Só que o texto veio no e-mail, creditado a uma "Dra Fulana", e a Patrícia Daltro falou nos comentários que o texto era  de uma amiga dela, a Karina, que escrevia no Mafalda Crescida. Fiz o mea culpa, e a Karina veio, comentou... e começou a amizade que parece ter sido da vida inteira, e tenho certeza que vai durar pra sempre. Isso foi em 2008... De lá pra cá, já nos encontramos ao vivo algumas vezes, e numa delas, fotografei seu lindo casamento. Tudo isso é pra dizer que hoje trago um outro texto dela, que, igualmente "podia ter sido eu" a escrever. Não pedi permissão... mas está aí, com algumas pequenas inserções:

"Justo a mim coube ser eu" (Mafalda, by Quino)


E me lembro do Machado de Assis dizendo que, na verdade, somos todos esquizofrênicos. Não sou uma. Sou várias.

De vez em quando, sou doce, falo manso, gosto de flores e poesia, suspiro e falo de amor como quem respira o que ama. Em outra vez, sou menina e inconsequente, só penso em brincar, sorrir e falar alto, cantar e dançar, sentir-me leve e livre, deixando-me perder e guiar, como um filhote de pássaro.

Falante e despojada. Reservada e tímida. Posso ser altiva e dura, brigar como uma leoa pelo que quero. Ou parecer uma criança desprotegida que precisa de proteção e apoio imediatos.

Em um dia, fico pesarosa e reflexiva, imersa em mim mesma, em algum lugar tão fundo e tão distante, que depois que volto, nem eu mesma sei dizer onde é. Em outro dia, fico com vontade de gente, de papo, de toque, de renovação e novidade, e saio por aí procurando o que não encontrei quando fiquei eu comigo mesma… Naquele outro dia.

No meu trabalho, sou séria e profissional, asséptica e eficiente, cheia de metas e objetivos que precisam ser atingidos com a mais alta perfeição possível. Mas posso também ser relaxada, irreverente e tranquila, trabalhando apenas pelo prazer e a alegria de trabalhar, perdendo em resultados, mas ganhando em caminhos e contatos.

Posso ser uma filha rebelde e malcriada, ou dedicada e cuidadosa, abrindo mão de tudo por eles.

Posso ser uma esposa atenciosa e dedicada, doce e amorosa, transbordar de carinho e gentileza. Mas posso também ser bruta e dar patada, apenas por ter sido contrariada.

Posso ser a mulher condescendente e submissa ou a companheira que se impõe e não aceita simplesmente, mas briga e defende o ponto de vista.

 Posso ser uma amante quente e atritante, ou lenta e submissa.

Posso ser uma amiga que ouve, uma que fala, uma que dá risadas altas e ecoantes, ou uma outra que chora cúmplice e resignada.

Posso ser destemida e correr riscos inimagináveis, me atirando no escuro ou posso medrar ao ponto de travar sem motivo e dar pra trás sem dar ouvidos a qualquer palavra de encorajamento.

Posso ser divertida, cínica, sarcástica, vingativa, e até rancorosa.

Posso gostar da dor ou do prazer. Posso ter vontade de comer chocolate num dia e no outro ter aversão a tudo que é doce.

Às vezes, posso perdoar com a maior facilidade, e perdoar tanto que quase chego a esquecer. Em outras, não consigo perdoar de jeito nenhum, e sou dura e fria como uma pedra.

Depende da pessoa, do momento, dos acontecimentos, do sentimento, da emoção, da razão. Depende de tudo.

Não se trata de ser dissimulada ou calculista; apenas de dançar conforme a música, de sentir o vento e ajustar as velas.

E posso ser tantas outras. E todas elas sou eu. Em comum, apenas o dever de ser verdadeira em tudo, a consciência da impermanência das coisas e pessoas e a vontade de ser a melhor que posso ser em cada momento, em cada lugar, com cada um que cruza meu caminho.

8 comentários:

BethS disse...

lindo, né?

Karina Cabral disse...

Ah, os incríveis caminhos da vida que nos aproximaram... E me ajudaram a achar você, minha querida.
Sim, a sua fala é minha, e a minha é sua, e estamos aqui para nos esclarecer, nos contar... Nos traduzir.
Obrigada, querida!

Ale disse...

Belzinha, você escrevia sobre mim? kkkkkkkkk essa sou eu!

Bel disse...

No fim das contas, SOMOS!!! ❤

Bel disse...

No fim das contas, SOMOS!!! ❤

Anônimo disse...

E olha que nesse preto e branco entre (e entorno) o coqueiro e o obus, entre o lar e a revolução, entre o bandido e o herói, entre Leblon e Pernambuco, inda tem, para além e aquém de um metafórico dégradé, uma infinidade de cores que escapam do espectro visível.
Limitações semióticas: abarcar o contínuo e o confuso num descontínuo perfeitamente ordenado – é assim que nascem os textos.
......................
Sem querer ser chato: leu as tirinhas da Mafa ou esqueceu-as num canto da estante?

Bel disse...

Você É chato.
Leio sempre, impossível ficarem num canto da a estante.

Tucha disse...

Como definiu bem este lado mutante feminino a poeta Cecília: "Tenho fases, como a lua....Fases que vão e que vêm,No secreto calendário/Que um astrólogo arbitrário/Inventou para meu uso"
.