20.9.16

Minguante

"Cheguei, chovia
Eu não sabia: tinha alguém a esperar.
Olhei, sorria
Sorriso doce que faz apaixonar.
Em menos de um segundo a minha vida mudou
Até sei quem fui,
Porem não sei mais quem sou.
Se ela me quiser, tenho certeza,
não vou mais a lugar algum...

Lua minha,
Que ilumina as noites do litoral.
Lua minha,
Te ter todinha num eclipse total...
Lua minha...
Te ver crescente, nova, cheia de amor
Lua minha...

Serei minguante quando você se for..."
Cinco dias já se passaram, e eu aqui, me segurando pra não falar sobre a morte de "Santo". prefiro continuar chamando o ator pelo nome da personagem, relevem.
Sim,eu assisto novela. Sim, eu uso como justificativa o fato de que estudei "Rádio e TV" e preciso estar sabendo do que acontece. Sim, eu poderia confessar aqui coisas que vocês achariam absolutamente distante do que eu pareço ser, do que se adequa ao "meu perfil". Mas não estou muito a fim de destruir minha reputação, pelo menos, não inteiramente.

Pois então... assisto novela (e mini-série, e série) (agora mais do que quando trabalhava à noite), e me apego às personagens, converso sobre os acontecimentos como se fossem parte da vida real... questiono atitudes, imagino novos desfechos... deve ser algum distúrbio de criatividade excessiva, provocado pela supressão da dopamina no córtex central (entendedores entenderão). 

Quando ouvi a primeira notícia sobre o "desaparecimento" de Santo no Rio São Francisco já fiquei mexida, com aquele sentimento de "já foi, já era, não tem mais jeito". E estava com a TV ligada quando Renata Vasconcelos deu a notícia oficial de que haviam encontrado o corpo. Era quinta feira, dia de ballet, e fui pra aula ansiosamente aguardada durante toda a semana, empurrando a mim mesma. Sem graça, sofrendo como se tivesse sido alguém meu. Como se aquele sorriso, aqueles olhos, aquela boca que vi em close tantas vezes, fossem mesmo me fazer falta a partir daquele dia. E eu não poderia fazer nada a respeito.

Pois a quinta estava como que me preparando para a incerteza da sexta, a angústia do final de semana e o luto da segunda-feira. 

Confesso que o domingo foi um dia irritante.Primeiro porque estava cinza, molhado e frio, não rolou praia nem nada de interessante, e a Globo (é, eu assisto!) castigou no assunto. Suportar o domingo foi dureza.  Mas não foi pior do que a segunda. Aquele dia em que a vida deveria voltar ao normal, mas não foi igual. Foi o dia em que caiu a ficha, e toda tristeza se transformou numa dura realidade, ainda que num universo paralelo, ainda que completamente vinda do universo improvável e se torna real. 

A morte e a separação que consequentemente acontece, não são desejadas, apesar de se anunciarem desde o primeiro sopro de vida. Enfrentá-las não é fácil, falo com  propriedade de quem já viu alguém morrer num hospital sem ter consciência do que estava de fato acontecendo; de quem precisou acudir uma amiga que cometeu suicídio se enforcando na viga da varanda; de quem sofreu abortos espontâneos; e de quem convive com idosos que anunciam a morte seja com sinais físicos ou com sua própria boca.  

Não sei como é morrer. Mas em muitos momentos achei que ia. Obviamente, não fui. Mas na minha experiência, morrer dói menos do que ver morrer.

Sofre mais quem passa pelo luto, quem convive com a ausência e o vazio, quem questiona os motivos (ainda que sejam claríssimos!) e quem se apega aos "e se...?" do que quem de fato, morre. Dói também a falta de uma despedida digna, de um abraço demorado, de um último beijo, um carinho, um "eu te amo", um risada gostosa de alguma bobagem... Mesmo que a gente SAIBA que vai acontecer "um dia", sempre ficamos pensando que esse dia ainda demora, ou se tivermos sorte, nunca chegará. 

"Você é boba, moça!" me diz uma voz que  ouço só na minha cabeça, por não lembrar que "viver é correr riscos" e "quem está no fogo é pra se queimar". O que dise, em outras palavras, Guimarães Rosa: O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,sossega e depois desinquieta.O que ela quer da gente é coragem."


Eu não morri. A vida, como um miserável paradoxo, matou (ou tenta matar) algo dentro de mim. E o que posso fazer? Absolutamente NADA.  A não ser dormir. A melatonina está fazendo efeito! #todascomemora!!!

Um comentário:

Anônimo disse...

“assisto novela (e mini-série, e série) (agora mais do que quando trabalhava à noite), e me apego às personagens, converso sobre os acontecimentos como se fossem parte da vida real...”
Confessar-se telespectadora de novelas e de minisséries e apegar-se a personagens, como se isso pecado fosse?!
Oxente!se deixe de bestage.
Por mais que pretenda uma apreensão intelectual de sua obra, todo autor visa, mesmo que não o confesse, acertar no alvo do afeto. Quanto a isto, nem carece de auxílio a Nietzsche ou a quaisquer psicologias para dar força ao argumento.
(Estou praticamente convencido de que a razão, quando dá o ar da graça, serve sobretudo para justificar emoções.)
Onde achas que reside, em grande medida, o sucesso de inúmeras obras literárias ou cinematográficas?
(Sempre me arrepio com a sequência final do filme “Batalha de Argel”.)
Diz que quando “Os Sofrimentos do Jovem Wherther”, de Goethe, veio a lume, houve uma onda de suicídios de homens jovens na Europa. A coisa foi de tal monta que os jornais franceses pararam de noticiar esses tais cometimentos.
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“cinza, molhado e frio”
Como não sou sertanejo nordestino esperando chuva - “Mas o lindo pra mim é céu cinzento/
Com clarão entoando o seu refrão” -, tal condição meteorológica também costuma me deixar pra baixo.
...
“Eu não morri.”
Se avexe não; um dia vai.
Supremo paradoxo: a certeza da morte é o que dá importância à vida.
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Abração.