24.2.17

A luz acesa na garagem

Eu nunca havia percebido, até o dia em que ele falou: "Todos os dias que eu vejo que você saiu à noite, deixo a luz da garagem acesa, para quando você chegar. Quando vir aquela luz acesa, saiba que estou orando por você, para que você chegue bem em casa."

Isso foi há alguns anos... e todas as vezes que eu chegava em casa, voltando do trabalho, às 23h, recebia o amor que fluía por aquela lâmpada acesa na garagem.

Contextualizando: Tenho paúra de escuro, não me sinto bem quando está tudo COMPLETAMENTE no breu. Só quem me conhece bem e que me ama, faria algo assim. Os instantes entre sair do carro e acender a luz são angustiantes... e eu deixo os faróis do carro acesos enquanto chego ao interruptor na parede.

Hoje não encontro mais  a lâmpada acesa. Meu pai não desce mais para fiscalizar se a porta da rua está fechada e acender a luz enquanto ora por mim. (Eu sei que ele ainda ora, mas não pode mais descer as escadas). E a cada vez que chego em casa à noite, eu é que agradeço por ainda encontrá-los em casa.

Ontem cheguei mais cedo, atendendo ao chamado da cuidadora... minha mãe havia tentado levantar sozinha, quase caiu... e enquanto a mensagem era enviada, a menina traquina fez travessura novamente.  Subi as escadas voando, e me senti a própria diretora da escola ao pegar um aluno pra conversar, após um mal feito. Quando perguntei "o que houve?", ela me respondeu: "aquela cadeira lá estava torta... e eu levantei pra consertar. Quando vi, já estava caindo." Não adianta... ela não compreende, não "realiza" que não pode simplesmente ir levantando sozinha... como deve ser difícil se sentir assim, ou nem ter essa consciência... :(

Mas enquanto eu conversava com ela, explicando que TINHA que chamar a cuidadora e pedir que ELA arrumasse a cadeira, os olhinhos se perderam... e ela já nem me ouvia. Ele chegou, tinha ido escovar os dentes depois de jantar, e como entende melhor as coisas, pedi o apoio dele, na conversa com ela.

Ah, que frustração...  Depois de eu fazer um discurso sobre o valor de "ser cuidado", o amor que com que nós estávamos ali, fazendo o que precisasse... ele me sai com 4 pedras na mão, entendeu tudo errado, ou melhor, não entendeu nada do que eu falei, foi horrível. Ontem foi dia de mais um aprendizado: Não falar "parágrafos" extensos. Frases curtas, e esperando resposta, são essenciais.

Depois de ele se desestabilizar, não consegui mais nada. Eu também fiquei fora do prumo, e a solução foi sair de perto, e deixar a cuidadora tentar acalmá-lo. Só depois que subi e fui mastigar o acontecido foi que cheguei à conclusão acima, sobre o tamanho da fala. E tantas outras coisas que só descubro depois, tão depois...

E assim mais um dia se passa, mais uma  vez paro pra registrar o quanto é complicado viver. A canção de Ana Vilela, que viralizou há alguns meses é perfeita para o momento:


Trem-bala

Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si,
É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti.
É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz,
É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós...

É saber se sentir infinito num universo tão vasto e bonito,
É saber sonhar!
E, então, fazer valer a pena cada verso daquele poema 

Sobre acreditar!

Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu,
É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu.
É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações,
E assim ter amigos contigo em todas as situações.

A gente não pode ter tudo. Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso, eu prefiro sorrisos e os presentes que a vida trouxe pra perto de mim!

Não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar,
E sim sobre cada momento e sorriso a se compartilhar.
Também não é sobre correr contra o tempo pra ter sempre mais,
Porque quando menos se espera, a vida já ficou pra trás...

Segura teu filho no colo, sorria e abraça seus pais, enquanto estão aqui!
Que a vida é trem-bala, parceiro... 
E a gente é só passageiro, prestes a partir!...



(Dos muitos vídeos que já recebi desta canção, este chegou hoje. E foi especial.)


Um comentário:

Aline Monteiro disse...

Que lindo seu pai, Bel! Esses toques de carinho são tão simples e tão únicos...
Entendo essa dificuldade de comunicação. Passei por isso e, olha, dói pra caramba. É difícil porque não tem manual de instruções e a gente vai se adaptando na tentativa e erro mesmo.
Tô aqui, se puder fazer algo por você e pelos seus.
Bjoooooo